egodistonia
November 14, 2007
Um palo que ficou tão seco, tão seco, e era um dia de tempestade elétrica, as tias escondendo os espelhos da casa atrás de lençóis antigos, as criancinhas se empoleirando em cima da cama numa cabana de cobertores e gritando em uníssono esganiço cada vez que lá fora fazia brummm. Aí veio cair um raio bem em cima do palo, que estando seco seco não demorou a alimentar a fagulha que logo se transformou em caprichosa labareda. Aí já era.
O problema todo é que blogueiro que é blogueiro raramene se limita a ter um blogue, quando dois podem se dar bastante melhor com a pesada carga de ego sem que as rodinhas se espatifem pros lados. É até engraçado, essas discussões sobre ego, sobre arrogância, porque muitas palavras que leio por aí vão ao encontro das idéias que rondam as nuvens de conhecimento no meu cérebro, tal, mas nada a ver.
Fato é: deixamos aqui enterradas as cinzas de mais um bloguezinho, para refletir um pouco sobre a morte, o fim estúpido e inevitável, e não esqueçamos jamais que é para lá que todos nos dirigimos e que portanto toda coisa é apenas vaidade. A impressão que nos fica quando somos lembrados de que Ela existe por alguma ocorrência que nos venha a soltar com dedinhos infantis a fita do chapéu.
Quando você aprende a fazer os laços no cadarço, raramente, se puder evitar, vai pedir para que alguém os amarre para você. Você passa a ter sua própria amarração e seu próprio jeito de passar os dedos por cima ou por baixo, ou fazer duas ou uma lingüeta antes de dar o traço final, e você passa a confiar nos seus próprios laços, e achar que são os melhores laços de que você pode necessitar. Mas às vezes eles afrouxam e você se sente inseguro e vai depender da ajuda de alguém mais hábil para que possa confiar nos seus próprios laços de novo; é desse jeito até o fim. Isso tudo pode não fazer sentido pra vocês, mas certamente faz, então é bom terem colhões, senhores.
E sim, esta casa agora são cinzas. Agora moro acolá.
Na messível do podida, atualizem seus blogrolls, e ponham em dia suas assinaturas.
os olhos nunca mentem
October 30, 2007
porque, bem, os olhos não dizem nada.
just
October 26, 2007
Parece que as questões mais árduas, de resolução mais incômoda (as ambigüidades do trato, as linhas finas que separam duas campanas muito bem instaladas na floresta das tradições etc.) chegam às mãos mais bem preparadas involuntariamente, por ação do destino ou algo assim, mas, na verdade, se lhes aparecem somente porque são essas mãos, ou essas mentes, que as podem enxergar de maneira mais complexa (o que traz sofrimento e leva embora a paz, mas essa não é a questão aqui). A inteligência permite enxergar os fatos como pequenos nós de uma rede maior, e enxergar os seus detalhes se reproduzindo por meio de sinapses surdas, sutis, numa rede bastante mais profunda que infelizes direitas e esquerdas, de maneira que quanto maior o alcance da visão, mais para perto do inferno se pode olhar. São detalhes tais que às vezes não podem ser interpretados por olhos humanos quanto menos descritos por suas bocas – tendo encontrado cruel fim os que tentaram narrá-los. Contudo, estão aí. E então há todas as situações que se nos interpõem diariamente, e talvez tudo fosse mais fácil se pudéssemos fazer algo de realmente bom com elas, à imagem do que já fizeram grandes homens, porque do contrário seremos sempre reprodutores dos mesmos estúpidos erros, e seremos eternos protagonistas dessa rede de clichês que é a vida. Alguns chamam a isso de karma, outros acreditam que as reencarnações são cíclicas buscas atrás da auto-iluminação, mas não vêem que as reencarnações se dão no decorrer da própria vida, não sendo necessário recorrer a alardes fantasiosos para reconhecer isso. A situação talvez se amenizasse e todos pudessem sair da fossa se soubéssemos o mínimo que fosse da arte de viver uma vida sequer. Ninguém sabe coisa alguma; muito se fala, pouco se escuta, e menos ainda é o que se entende. Somos animaizinhos assustados, esticando nossos braços caducos para cutucar um ao outro com uma varinha e escondendo-os logo em seguida atrás dos cobertores que usamos para encobrir nossas verdadeiras carcaças, as quais de tanto se esconderem já atrofiaram e tomaram uma violenta palidez, enrijecida e sulcada em torno de ossos antigos e destruídos pela coca-cola.
o melhor post desta casa:
October 12, 2007

In Rainbows
October 11, 2007
A essa altura já devem ter resenhado, excruciado e vangloriado, mas eu só queria dizer que estive a escutar o novo disco do Radiohead e uma casquinha de gesso que começava a envolver meu pequeno coração foi trincando devagar e acabou por rachar completamente diante de sua vontade súbita de fazer tum-tum, façanha essa alcançada umas duas ou três vezes hoje pela manhã.
Conversem vocês, seus dois cúmplices
October 9, 2007
[ou “como parei de temer e aprendi a amar o medo”]
Tem essa onda e eu queria saber se posso ir rápido demais e acabar caindo ou ir devagar demais e acabar deixando passá-la. Olhando daqui parece que está encaixotando, o que é muito tentador, mas sempre deixa evidente o risco de se tomar um caldo arriscado para as costelas. Ora também parece um desastre, um trem desgovernado e irregular, se quebrando em partes, o que desanima um pouco, mas faz a vista já levantar em busca de mais uma bateria, porque a lida tem que seguir. Estive pensando: o meio-metrinho de ontem estava ok, e hoje dá que o metro e meio na dorsal estão minando a coragem do velho. A gente fica olhando lá das pedras e se sente formalmente convidado, cai com vontade, e depois de entrar nesse negócio mexido umas duas ou três vezes, o ânimo parece que se vai junto com as forças. Ô Mar, ô Iemanjá, faz a coisa ajeitar um pouquinho, faz. Se não, nego fica aqui não sabendo se sai ou entra porque está com o pé lá atrás com essas baita. Se leva uma dessas no cerro, o velho não agüenta. (Cansei da metáfora, preciso de ar). (Tá bom, já recuperei). (Sim, pois sou bala na agulha). (Chega). (Ok). Teve até esse outro dia e eu pensei se podia ficar atrás da arrebentação e levar um cabernet qualquer, barato que fosse, só pra poder olhar a Lua em situação tão especial, na companhia de toda essa beleza, inteligência, obscurantismo e mistério, que é a Natureza-Mãe; Mãe do Mar, Mãe da Lua, Mãe da gente; seria só por alguns minutos. Só que aí bateu a consciência pra dizer que não se deve fazer essas coisas assim tão depressa, às vezes Iemanjá assusta e vai-se embora pra nunca mais. Mas sei lá, entendo cada vez menos os desígnios do Todo-Poderoso, a Natureza às vezes pode ser perversa, mesmo sem saber. Homem de bem se dá mal por obra do acaso. O Vento às vezes sopra pro lado errado. Acontece. Enquanto não, fica a eterna espera pela onda perfeita, aquela que dá arrepios na espinha só de imaginar, aquela que uma vez surfada com vontade vai deixar um sorriso bobo no rosto pelo resto da vida, aquele tubo que faz ver em sua escuridão a face de D-us (aqui, como uns judeus mais doidos por aí, evito escrever o nome de Deus em vão). (Oops, D-us). Fica a certeza algo inabalável de que amanhã, ou depois, ou depois, ainda há de rolar a onda perfeita. Não tem problema, eu espero. Terei 40 anos e se for preciso, continuarei esperando. A onda perfeita um dia há de vir e quando vier servirá mesmo para libertar a alma desse suplício eterno que é a vida, soltar o espírito dizendo assim: “vai-te liberto homem, já podes morrer feliz”. E aí a unção já se concretizou, aí as coisas começam a fazer algum sentido, e a velhice poderá então conservar um sorriso durante a profilática e gradual perda dos sentidos, durante o esquecimento de todas as coisas. O homem poderá ir-se em paz, em glória, para os banquetes conspícuos da não-existência; saudável e pacífico, tudo vai se apagando, todos os detalhes, todos os dramas, todos os sofrimentos; ao homem que teve a chance de surfar a onda perfeita, tudo se prepara como que ritualmente para o derradeiro; o esquecimento eterno que é a morte.
pfui
October 9, 2007
Ficar sem Internet em casa é o ó da picada.
Ok this one’s for Gabby
September 30, 2007
O problema de um blog ter esse formato aberto, leitura para quem quiser, é que esse quem quiser é quem quiser realmente mesmo quando esse quem quiser se refere à tia de quem você falou mal três posts atrás. E não venha com esse papo barato que você já começou a tirar do bolso, George Boy; eu sei muito bem que manter um blog nada tem a ver com manter um diário – embora lutasse com espadas à honra de que o blog tenha essa aura de diário pois que isso tem seu quê romântico – o blog é mais que isso, está em outro nível: não serve apenas para narrar os umbiguentos momentos, e reclamar de falta de privacidade seria idiotice. A questão aqui, senhores, é muito mais profunda, muito mais profunda.
A escrita é um refúgio, é a verdade. E isso é tão lógico que não se pode negar. A escrita é o bunker dos poetas, o ombro parceiro do amargurado, o companheiro fiel do boêmio que tem motivos nobres para ser boêmio; motivos que as almas pequenas jamais compreenderão, motivos que fariam os cabelinhos das costas de uma senhorita inexperiente recrudescer-se para um frêmito de pavor e compaixão que a perpassaria da cabeça aos pés. E é fato que uma vida mais sofrida garante um texto bastante melhor. O escritor que sofre é o que verte uma prosa mais bela, conquanto este sofrimento corresponda a uma vida de mais intensidade, mental ou física. Os quais tiveram tempo de tornar-se íntimos da pena foram os que mais desgostos tiveram. Isso, porém, se reflete na fonte e não na obra; se bem que os grandes tenham um ritmo sempre regido na clave da melancolia.
Sendo então o amparo, é inevitável que vez ou outra se imprima no papel uns versos de cumplicidade. Posto o quê, é inevitável que vez ou outra se escreva sobre uns assuntos mais assim. Nenhum problema até então. Eles começam quando esses assuntos e impressões dizem respeito a pessoas próximas que tenham tomado nota da existência do blog. Há o jeito difícil de se resolver isso que é escrever e trancar a folha à chave na gaveta da escrivaninha. Difícil porque custa muito aos literatos segurar para si as pequenas pedras que lapidam. No geral, são as pedras em que seu trato mais se aprimorou durante a vida e, portanto, as partes que melhor têm para oferecer de si à batalha contra a mediocridade. É difícil para estes senhores que se contenham pois detêm consigo, à custa de muita dedicação, conhecimentos milenares de caráter e sabedoria, aham. O jeito fácil é publicar de uma vez e atirar essas pedras para o alto, a fim de que tenham início suas trajetórias pelo infinito até que encontre-as, neste mundo ou em outro, alguém que delas necessite.
O que teria dito, pura e simplesmente dito, em outro momento qualquer, dizia respeito à poesia do vinho, essa tão nobre bebida que serve aos deuses desde que o homem é homem, e que apesar de uma poética rebuscada, talvez somente tenha a dizer que as coisas apenas são, e que o vinho deve ser apreciado tendo-se isso em mente; tendo à mão que os conhecimentos todos tornam-se supérfluos no momento em que atingimos o âmago dos prazeres. Assim é que ensina Mestre Caeiro, e não por acaso é entre todos o Mestre.
O problema de um blog ter esse formato aberto, leitura para quem quiser, é que teria ido além disso, e depois de uma visita mais à taça que no momento tenho por companheira, me debruçaria ternamente sobre alguns temas que colocam um homem vulnerável, assim que me calo à força do silêncio.