Confissão

June 12, 2007

Começarei este blog fazendo uma confissão a vocês, leitores, que me irão acompanhar pela semana e dois dias que ele deve durar (e, por isso, desde já lhes agradeço). Uma confissão que, aos senhores que trabalham com palavras, jamais deveria escapar: venho cá compartilhar minhas inspirações – as quais um vulgar chamaria de plágios – para escrever deste meu jeito distinto e distante das incorreções da gramática.

Quando comecei a escrever profissionalmente – digo, quando assumi esse ar meio sério e arrogante – foi lá pelo ensino médio, quando uma professorinha que tinha o sorriso abobado de quem tem um marido bastante presente nas noites frias, veio dizer-me que eu tinha jeito de cronista. Se me repetisse hoje o impropério, confesso que não a deixaria escapar com os incisivos inteiros, mas foi naquele tempo em que ainda nos deixamos irromper por elogios desses professores que lecionam para alunos de ensino médio por questões óbvias, e eu fiquei feliz, pensando que era tão legal escrever como o bobinho do Veríssimo, minha ingênua noção de cronista na época.

Hoje, dias iluminados, a associação com o gaúcho já seria suficiente para levar-me a detestar os cronistas. Mas por culpa do elogio distraído fui dar em Rubem Braga. No carioca, descobri o quão celestial pode ser um cronista, o dono dessa mão leve e brincalhona que, em segundos, tece as mais belas malhas de palavras. E então passei a odiá-los todos. Porque era óbvio para mim, garoto, que eu jamais poderia escrever com aquela volúpia. Hoje, a obviedade persiste, mas custa-me admitir tanto de uma só tacada, poxa.

Como a fase de inspiração na crônica tenha sido breve, passei uns anos sem saber em quem espelhar-me (um homem de bem se espelha em um seu semelhante, não em um deus qualquer). Algo que geraria calafrios entre um ruminar e outro dos professores com seu “busque um estilo próprio”. Imaginem vocês, eu, um garoto de 16 anos, buscando um estilo próprio. Acaso achavam que estava sentado um Kafka em suas classes? Francamente. Eu tinha mais o que fazer, como correr atrás das gostosinhas da minha sala. Deu-se então que nesses anos negros apenas uma vez a cada uns três dias meus textos iam parar na lista dos melhores do colégio.

Depois da fase escura – raciocinei que pode ser ruim chamá-la de negra – fui afinar-me, entre uma centena de autores e outra, com Douglas Adams, mas logo compreendi que alguém capaz de ver nos golfinhos seres inteligentes possui uma mentalidade totalmente inconcebível para um espírito sofisticado como o meu. Em vista do quê desisti de fazer humor como DNA.

E vieram tantos nesses anos, estrangeiros e não, que, criança inconseqüente, acabei atirando meu estilo a um emaranhado de influências que já não controlo mais. Uma parte de mim quer empostar-se num discurso polido e oitocentista como Machado de Assis; outra quer atirar-se à vida como um ancestral negro cujo – cujo! – suor cinge a face na medida em que sua força empurra o moinho da vida, ou qualquer coisa assim, como faria Jack Kerouac.

Aí fui parar na faculdade – uma brasileira, pois Havard estava sem vagas (acho que vi essa piada num Scorcese, perdoem-me). E tenho que admitir que pouquíssimos colegas deram-se ao luxo de elogiar meu traçado (uns 94, mas nem contei aqueles que leram e saíram como que mortificados por um orgasmo sem dizer nada), o que deixou meu orgulho muito abatido. Daí que, em meio a tantas outras influências trazidas pelo trato universitário, me perdi num rodamoinho de idéias, com as quais já agora na tenra idade só consigo lidar depois dos dois tragos matinais.

Para me eximir de ser linchado em praça pública caso meus textos não agradem a Realeza é que faço essa confissão já na primeira entrada. Confissão que, como já disse, custa muito aos senhores das palavras, aos quais vale mais cessar as escrituras numa dada altura da vida e colocar as culpas numa catarata inexistente ou na perda de uma musa (o que se trata de mentira deslavada, pois a um poeta de alma jamais falta musa), que admitir o mundo convertido em um lugar complexo demais para suas mentes.

Sou um confesso. E talvez por isso jamais possa sentar-me a direita de Fitzgerald ou a esquerda de Quintana para proferir com risinhos senis algumas piadas aos imortais que falecem. Mas talvez eu ainda tenha uma chance. Por isso, conto com sua ajuda para rezar pela minha alma tantas vezes quantas tiver vontade de esbravejar ao ler os textos desta casa.

Agora deixem-me ir, minha hora acabou.

2 Responses to “Confissão”


  1. Eu já imaginava que você não resistiria às palavras🙂
    Sim, fico feliz com sua volta e por saber que gosta do Braga assim como eu

    Rezarei por sua alma, fotógrafo-cronista


  2. Fernando Imperator diz (03:04):
    muito metido seu primeiro texto.
    Dael diz (03:05):
    tu diz
    Fernando Imperator diz (03:05):
    o comentário acima quer dizer q um pouco de mim ficou com invejinha de como vc escreve bonito e a outra parte ficou tentando entender sobre o q vc dizia, e qual sua confissão, que não sei nem se foi feita, tendo terminado agora o texto.
    Dael diz (03:05):😉


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