Colóquio

June 27, 2007

Certa vez, num ímpeto de grandioso altruísmo, escrevi algumas belas linhas sobre a questão do nacionalismo, de ser um patriota, essas bobagens todas. Como previ a princípio, assim que as publiquei, iniciaram a pular dezenas de janelinhas na tela do computador para as pessoas que me vinham agradecer por tão sublime gesto esse de levar a luz aos comuns, mostrar-lhes a simples e inegável verdade de que o nacionalismo é simplesmente atestado de uma ligeira desvantagem mental. Algumas garotas resolveram propor os mais ousados meios para se quitarem da dívida que comigo haviam contraído. Outros vinham às lágrimas, tocadas pelas nobilíssimas palavras a que dei forma. Tantos outros vieram (mas nenhum gaúcho) e há ainda hoje aqueles que ao me encontrar na rua não têm coragem de me dirigir o olhar, envergonhados por me terem questionado alguma vez na vida.

O que alguns deles não entenderam, no entanto, é que nacionalismo não necessariamente diz respeito ao país, porque, como se sabe, nação não é sinônimo de estado. Negaram amor ao verde e amarelo, abriram mão de entrar em discussão contra um estrangeiro, mas continuaram torcendo vivamente para times de futebol. Nos bares, discutindo; em frente à tevê, se descabelando; por um time de futebol. Ora, ter um time de futebol difere do nacionalismo apenas por permitir alguma escolha, mas se iguala em todo o resto. O fanatismo de discutir em nome de fulanos desconhecidos, a idéia de que se pertence a algo que nem existe, a propensão a atitudes trogloditas e tudo isso.

Claro que, como esses aí, um certo dia eu também tive a camisa de um time e assisti a um jogo com os olhos imparciais de um fanático, não, talvez um fanaticozinho. Mas aí eu completei 13 anos e esqueci disso tudo. Hoje, alguns amigos me olham intrigados, questionam, como pode não ter um time do coração, meu Deus? Não tenho, e entretanto sou aficionado pelo futebol. Porque não é preciso torcer por um time para se gostar de um esporte. Quando assisto a uma partida, e assisto apenas às que merecem, assisto pelo prazer de um bom jogo, não para ficar pulando feito um macaco ou comportar-me como se tivesse comido uma banana estragada quando um time perde.

Mas gosto imensamente do futebol, de praticá-lo especialmente. E o faço com apreciável desenvoltura, pois um homem deve ter essas habilidades para que possa comentar com as pessoas que se zangarão pela sua falta de modéstia, oh, tão arrogante. Além do quê, é uma das ótimas qualidades para se apresentar a uma senhorita. Mas jamais tive a deselegância de brigar por futebol. Pois se há algo de verdadeiro sobre isso é que as conversas sobre futebol são enlatadas e não exigem civilidade alguma.

Há uma ou duas coisas que todos sabem. Pelé sequer foi uma ameaça ao trono de Maradona, a Inglaterra hoje tem o melhor time do mundo, mais uma série de pequenos conhecimentos que chegam pelos ventos sobre os times nacionais, e pronto: pode-se dar horas de conversa repetitiva e enfadonha a qualquer torcedor tolo. Mais ou menos como as conversas que se tem com um amigo dorido pelo amor; sempre as mesmas falas, os mesmos conselhos que se dá aos apaixonados. As conversas sobre futebol, assim como o amor, andam em ciclos.

O esporte é apreciável pela beleza do esporte e apenas por isso. Pelas emoções, pela sensação de justiça que se tem ao torcer pelo mais fraco, pela satisfação de uma batalha vencida em campo, pela arte, pelo espetáculo. Assistir a uma partida de futebol deve ser algo como assistir a um concerto – um instante de contemplação pelo divino, donde se depreende que somente alguns poucos times, a grande parte no Velho Mundo, merecem hoje ser observados em campo. Menos ainda os que o merecem fora dele. E um homem inteligente deve saber disto. Porquanto, ao recitar a escalação, o banco de reservas e a diretoria de um clube de futebol, qualquer homem perde o intentado charme.

11 Responses to “Colóquio”

  1. Thaiana Says:

    Daell, tu me pira, véio.
    Mas eu preciso ler o que tu escreves.
    ;D


  2. Não entendo ‘lhufas de futebol.

  3. Fabiane Says:

    Sim, gostei🙂

  4. Erick Says:

    Eu discordo.

    “Ora, ter um time de futebol difere do nacionalismo apenas por permitir alguma escolha, mas se iguala em todo o resto.” Mas como?

    Fanatismo religioso, patriotismo etc geram xenofobia, discriminação, atitudes irracionais de uns contra outros. Aplicar o mesmo sentimento ao esporte é absurdo, os que o fazem são desequilibrados. Não se mata por futebol. Mas as pessoas tendem a se apegar, é natural, é uma forma saudável de se sentir. O que a paixão por um time pode causar? Rivalidade? Desde que haja respeito, a emoção causada pela rivalidade não é positiva?

    “O fanatismo de discutir em nome de fulanos desconhecidos, a idéia de que se pertence a algo que nem existe, a propensão a atitudes trogloditas e tudo isso.”
    “O esporte é apreciável pela beleza do esporte e apenas por isso. Pelas emoções… ”

    Mas a emoção da torcida não entra aí? Não são essas emoções que causam as “atitudes trogloditas”? O que há de errado em pular feito macaco? Isso faz parte do esporte, atuando diretamente no espetáculo dos jogadores, que são sim afetados pelo sentimento dos torcedores. Afeta a arte.

    Como imaginar o esporte sem torcedores que saibam a escalação, o banco e a diretoria?

    “propensão a atitudes trogloditas”
    “pulando feito um macaco”
    “E um homem inteligente deve saber disto.”
    “perde o intentado charme”

    Hmm… ;/

  5. Dael Says:

    Erick, tentei captar o seu argumento e acredito que você quis dizer que torcida é importante porque faz parte do espetáculo, transmite energias aos jogadores. Bem, também acredito isso, não desmereço a torcida em parte alguma, tanto que torço também. Mas não crio intriga por isso, apenas torço, da mesma forma que acho linda a Monica Belucci, mas não saio no grito com alguém que prefere, sei lá, Maria Fernanda Candido.

    Olha uma coisa que acabei de ler depois do jogo e que resume um pouco do fanatismo besta que alguns cometem por serem torcedores. Do GloboEsporte:

    A sorte do Brasil poderia ter mudado logo aos cinco minutos. Por um erro do árbitro argentino Rodolfo Otero, um gol legal de Diego foi anulado: após chute de Maicon, o camisa 10 recebeu em posição legal e marcou, mas o juiz deu impedimento. (grifo nosso)

    Seleção derrotada, que se culpe a quem quer que seja, com a prefêrencia para um rival. Dois comentários: a sorte do Brasil não teria mudado nos cinco primeiros minutos, porque foi o Brasil quem dominou o começo da partida. Colocado assim, dá a entender que o gol marcado representaria uma reviravolta que foi assim evitada, o que não é verdade; outra: um bom juíz não marca impedimento em um lance confuso dentro da área, apenas confirma ou não o que diz seu assistente, de forma que nesse lance o erro foi desse último, não do juíz. Mas é um árbitro argentino, não é?

    E eu não gostei desse seu negócio de fazer versinhos com as minhas frases.😛

  6. ulisses Says:

    hm, não sei se você reparou, Dael, mas está discutindo futebol.

    “a sorte do Brasil não teria mudado nos cinco primeiros minutos, porque foi o Brasil quem dominou o começo da partida. Colocado assim, dá a entender que o gol marcado representaria uma reviravolta que foi assim evitada, o que não é verdade; outra: um bom juíz não marca impedimento em um lance confuso dentro da área, apenas confirma ou não o que diz seu assistente, de forma que nesse lance o erro foi desse último, não do juíz. Mas é um árbitro argentino, não é?”

    eu poderia discordar aqui, se fosse uma anta.

    tá certo que o, sei lá, o Chico Lang não discute futebol assim, mas continua sendo um argumento de qualquer comentarista um pouco mais ajuizado. E você perdeu o charme.

    =]

  7. Erick Says:

    Que, fifa, não são versinhos, são só frases que achei meio estranhas e amontoei.

    Bem, o que eu quis dizer é que, pra mim, o tal fanatismo futebolístico, que gera atitudes trogloditas, discussões cíclicas e intrigas irrelevantes, não é necessariamente reprovável. A quem isso faz mal? As pessoas estão apenas torcendo apaixonadas.

    Eu concordo com o que diz sobre o Globo Esporte, porque o que lêem lá acabam tomando como verdade, por ser uma fonte teoricamente mais entendida.

    Eu nem sabia que tinha jogo ontem, e nem vi. Só acho que é bem válida a paixão por um time.

    Obrigado por responder.

  8. Dael Says:

    Erick, fazer mal não faz, assim como não faz mal (teoricamente, pelo menos) assistir às novelas da Globo todos os dias, mas eu prefiro passar longe disso.🙂

    ulisses, se você acha que isso é discutir futebol, então devo invejá-lo porque você vive bem mais longe dos tolinhos que eu. Pra ficar no mesmo exemplo, o post foi algo como “delinear as qualidades da Monica Bellucci”, o que não é necessariamente discuti-las. Além disso, o começo do post deveria servir pra me absolver e tudo.

    Mas ah, você me pegou, me entrego, chamem minha mãe que quero me despedir dela antes de colocar limpa minha honra.😛

    Amplexos

  9. Bruno Minero Says:

    Well Well… Grande Dael

    O pior do jogo de ontem a noite, foi com certeza, a narrasção do Galvão Bueno, q meu pai insiste em assistir. Depois de umas 40 vezes ditas, eu já estava começando a acreditar q o México realmente “descobriu a fórmula pra ganhar do Brasil”. Ele quase me vence pelo cansaço.

    Bem como torcedor passional q sou, gostaria de perguntá-lo:
    —————Helton—————
    D. Alves—Alex–Juan–Kleber
    ——Mineiro——Josué——–
    Anderson—Diego—Robinho
    —————Afonso————–

    Seria essa uma boa escalação pro jogo contra o Chile?

    Abraço, Maluco!

  10. Guilherme de Oliveira Schmidt Says:

    Oh nobre esquálido da espalda saliente, vejo que passam-se os anos e os comentários por aqui continuam tangenciando o superficial, logo, decidi deixar-lhe palavras sábias e comedidas a respeito de sua ponderação corriqueira. Lembro-me bem do ‘manifesto do nacionalismo às avessas’ e confesso que discordei veementemente de seus argumentos, na época pouco elucidativos e sem sentido. Após uma Copa do Mundo frustrada, jogadores mercenários e torcedores clamando por Obina a plenos pulmões vejo que de muita valia é o seu raciocínio, meu caro. O colega acima diz que não se pode comparar o nacionalismo patriota com o bairrismo dos clubes, pois bem, o mesmo certamente nunca prestigiou imagens de um pós gre-nal ou recorda de cenas lamentáveis como a fatídica final da Copa Juniores entre São Paulo e Corinthians. Ou então aquele torcedor palmeirense que foi espancado até a morte enquanto voltava pra casa após um dia de clássico. Quem sabe ainda os Hooligans ingleses que renderam filmes e noites sem sono para os pequeninos. Um viva ao futebol contemplativo! E à Monica Belucci!


  11. […] 12Jul07 Todo esse meu discurso sobre se ter um time, ser fanático por ele e tal, tudo isso, eu tenho vontade de imprimir várias cópias só pra […]


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