Outro dia um desses aí veio implicar quando eu disse que escutava Los Hermanos, coisa que eu faço com respeitosa deferência. Se esta sociedade ainda retivesse um pouco do juízo que tinha outrora, ainda poderia intimar esse senhor para um duelo, de modo que ele pudesse pagar com sua vida a displicência de falar mal dessa que é uma das coisas melhores que este país já produziu – e que como se sabe, não são muitas. Infelizmente, não posso incorrer para esta opção, então fico aqui de longe xingando-o e dando cuspidas no chão para indicar meu desprezo – “patife”, cusp, “calhorda”, cusp, cusp, talvez um “corno”, rrr, cusp, pra esculhambar com a sem-vergonhice do cidadão.

Meu gosto musical é finest, belo, saudável para a alma, e foi obtido em regimes longos em conservatório, com um mestre japonês me batendo com uma varinha quando eu ousava tocar Caetano Veloso ou Legião Urbana. São poucas as pessoas que possuem um gosto tão refinado e eclético quanto o meu. Porque há os que entendam tudo de post-rock, mas ao escutar algo diferente apelam já para o metal, escutam Rush – que é o máximo do metalizado que aguento mencionar, mais que isso meus tímpanos estourariam e eu me colocaria surdo para o resto da vida.

Da minha parte, conheço as coisas boas de cada estilo que aí está disponível, porque minha alma são várias. Mas entenda-se desde o princípio que algumas coisas nem podem ser chamadas de estilo. Metal, por exemplo, um estilo? Você acha que aquilo é um estilo? Deus do Céu, metal deveria dar calafrios em qualquer cidadão honrado – por isso deve-se desconfiar da índole de qualquer metaleiro. Pagode? Deus do Céu, um estilo? Apelação, meu filho, apelação. Funk, ok, vou admitir que funk possa ser um estilo. Não se pode negar que representa o desprendimento total das classes, no êxtase puríssimo de sexo, sexo, sexo. Mas é um desprendimento tão grotesco que me faz pensar “oh, Deus, que falta de elegância” e sair dando cuspidinhas no chão.

Enfim, as pessoas querem saber o que escuto, ficam se perguntando alarmadas, com cara de pânico às vezes, como naquele quadro do Munch, que se vocês não sabem qual, posso fazer um desenho para que se lembrem:

O Grito

O horror, o horror.

Bem, eu escuto Beethoven, o que, para o cidadão médio pode ser considerado cult. Gosto dessa palavra aí, cult. Fui conhecer ela, digo, o seu uso mais banal, na faculdade. As pessoas começaram a dizer que escutar Beethoven, e até mesmo Los Hermanos, é coisa de cult. E que portanto eu era um cult. Quando perguntei o que queriam dizer, responderam “se você escuta isso então é cult, né?”, ou “se você escreve desse seu jeito cult, então você é… você é cult, né?”. Enfim, escuto um pouco de Haydn e muito de Mozart. De erudita, só mesmo o classicismo me interessa, porque é como um sopro divino. Sou um senhor sensível, de maneira que meus sentimentos ficam a mercê do violino. Quando ocorrem aquelas mudanças bruscas que o Haydn usava como uma forma de “acorda aí, meu”, levo um susto emocionado dizendo “Esse Haydn me mata, esse Haydn me mata”.

Afora o erudito, aprecio Radiohead, que por si só, já coloca meu gosto acima de qualquer desses bobinhos aí. Escuto Pink Floyd. Nesse bolo já temos uns três gênios (eu disse gênios): Thom Yorke, Roger Waters e Syd Barrett. De gênio ainda, dessa vez um brasileiro, Tom Zé. Metade dos que criticam a música brasileira, jamais ouviram falar em Tom Zé, porque se ouviram e ainda mantém essa posição, é que são uns idiotinhas querendo atenção. De brasileiros, tem mais recentemente Supercordas, uma banda carioca que ressuscitou um rock sessentista mesclando com elementos rurais e obtendo um som extremamente viajante.

A lista de coisas boas vai longe, mas vou mencionar apenas o que estarei escutando nessas três semanas em que estarei longe desta casa. Pois é, as férias finalmente chegaram e vou adentrá-las no mais alto estilo, escutando boa música, terminando de ler o Hesse que tenho cá (enquanto dois Nabokovs me esperam ansiosos, se mexendo empolgadinhos na prateleira), e pondo o pé na estrada.

(Eu tinha até uns textos começados, também sobre música, para postar no blog do Renmero, que ele me pediu pra dar uma chegada por lá as vezes, ver se está tudo em ordem, alimentar o cachorro, essas coisas, mas não os terminei em razão do peso que sobrecai sobre as costas do estudante em fins de semestre, portanto fica este parágrafo como mea culpa).

Já começo a me alongar demais, então citarei de uma vez os músicos que estarei ouvindo: Neutral Milk Hotel, Clap Your Hands Say Yeah, Knife, Strokes (que não pode faltar), Céu, Cat Power, um pouco de Arcade Fire (no caso de eu ficar um pouco pra baixo), e, hmm, acho que Pixies também. Vou escutar mais coisas, óbvio, mas a lista já vai grande demais para um só dia de aula. Até agosto, gentê.

Desporto

July 12, 2007

Todo esse meu discurso sobre se ter um time, ser fanático por ele e tal, tudo isso, eu tenho vontade de imprimir várias cópias só pra amassar e jogar no lixo com raiva – porque apenas apertar o delete não bastaria –, quando eu leio o que os portugueses escrevem sobre. É tão bonito que nos dias em que estou mais sentimental, escapa-me uma lágrima brilhante e involuntária pelo olho direito. Ver um português falar sobre tênis, por exemplo, mesmo que eu nunca tenha jogado e nem entenda nada a respeito, dá-me uma vontade enorme de comprar todas as revistas que vierem à frente sobre o desporto das raquetes e dos urros de força e lê-las trancafiado num porão escuro e úmido até que me sinta pronto para sair e discutir com qualquer um sobre Federer ou Sampras. Queria saber o que há no tipo luso que deixa seus textos sobre esporte assim sedutores. Desnecessário dizer que não falo de jornais¹, muito embora os periódicos portugueses sejam melhores que os que temos cá. Falo é de uns textos muito giros de uns senhores que leio por aí. Mas nem vou contar quem são. Há certos prazeres que um homem deve guardar para si.

 

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¹ No dia em que elogiar um jornal espero que Deus se materialize, vestido como um rapper, um grande G pendurado por uma grossa corrente ao pescoço, “cantando” algo assim: “now you gonna fuckin die/ there is no more redemption/ and see you mothafucka that I do exist/ atheist dickhead without salvation”. Eu sei, essa nota ficou uma merda, mas não resisti a essa imagem de Deus fazendo rap e se mexendo feito um macaco, e quis ser educado e compartilhá-la.

Estou ocupado

July 12, 2007

1. Gula
2. Luxúria
3. Avareza
4. Ira
5. Soberba
6. Vaidade
7. Preguiça

Ocorreu-me apenas de enumerar os sete pecados para que não deixe de cometer algum em razão do esquecimento – minha memória vai indo mal. Era só isso que queria dizer. Até logo.

Católicos

July 9, 2007

O mais cansativo ao se discutir com católicos são as falas prontas, decoradas, por trás das quais se esconde o pensamento de pouco alcance. Por exemplo, você, num falar articulado, dando-se a diversão em que consiste discutir-se com um católico, resolve lançar de umas questões mais capciosas, tipo “hein, se Deus é tudo-de-bom, poderoso, absoluto, por que fica sempre trocando de idéia? Antes pode matar bruxa, depois não pode mais; antes tem limbo, depois não tem mais”.¹ Como resposta, vem sempre algo como “ah, meu filho, Deus escreve certo por linhas tortas hou-hou”. Entendem? Discutir com um católico é tão aborrecedor, entendem? Você está lá conversando quando resolve fazer umas perguntas sobre Jesus, este senhor que rendeu mais pano que tem o Sudário, tipo “aham, aham, Jesus morreu por nós, né? Para lavar nossos pecados, uhum. E então, por que não foi para o inferno, meu? Por que Jesus morreu cheio de pecados sem nem ter se confessado e não foi pro inferno? Ele pode, meu? Deus é um tremendo dum vigarista. Filhinho dele pode, né?! Playboyzinho, meu, isso daí que dá”. Então o católico a sua frente coloca uma mão contra a outra, assim com a ponta dos dedos se tocando, e lhe diz como se estivesse falando algo muito sério “ah, porque ele se dignificou na glória do Deus-Pai fazendo isso, então foi perdoado”. Diz mesmo como se estivesse dizendo “ah, se dignificar na glória do Pai ganha 20 pontos, então pode pular para a casa 19”, nada a ver com nada, entendem? Mas ainda assim discuto com católicos, às vezes, com esses que se levam a sério e tal, pois há sempre a possibilidade de aparecer um assim mais burrinho, para o qual você pode perguntar aquela bem básica. Aquela que não tem resposta, sobre se Deus, que pode tudo, criasse um peso tão pesado que Deus não pudesse levantar, mas se Deus pode tudo, poderá levantar. Você fala essa para um católico mais burrinho de um jeito compenetrado, com olhos inquisidores e tudo, simplesmente porque é divertido. Em muitas das vezes, eles dão tilt e explodem.

 

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¹ Deus muda tanto de opinião que agora já tem uma formulada sobre direção de veículos. Entendem? Não dá pra levar a sério um Deus cheio de pitacos, entendem?

Aqui. Se alguma senhora quiser tocar-me isto ao violino prometo que de imediato faço-a minha esposa para uma vida de intermináveis encantos. Mas nem sou tão exigente, se a senhora tiver apenas um Steinway, pode me tocar esta Sonata, ok?

Um ano hoje

July 7, 2007

Syd Barret

You reached for the secret too soon
you cried for the moon
Shine on you crazy diamond

Há um ano, ele deixava esta dimensão. Em vista do quê, seja este dia melancólico.

Caso

July 6, 2007

Ser blogueiro é mais ou menos como ser estudante de Jornalismo, um processo de leve e constante auto-flagelo, no qual, dia após dia, o espírito sofre alfinetado por diversas pontadas de vergonha e comiseração. Cada qual a seu modo, blogueiros e estudantes de Jornalismo são dois tipos dos quais a opção de vida custa-se para entender.

Um estudante de Jornalismo, ao passo que se dedica e almeja ser bom nisto, deve estar todos os dias a justificar sua escolha para si mesmo. Todos os dias a olhar os idiotas que estão nas classes ao seu lado, observá-los em sua crença idiotinha de que vão ser os próximos grandes jornalistas deste país. É terrível ter de envergonhar-se por um outro – atitude típica de um espírito frágil –, enrubescer-se pelas conversas que se vê pelos corredores todos os dias etc. pois nessas situações tenho sempre de fechar os olhos e pensar “é só uma faculdade, é só uma faculdade” como se pensasse um filho obrigado pela mãe a comer brócolis “é só um inofensivo matinho, é só um inofensivo matinho”.

Um blogueiro, por sua vez, que se dedica a textos bem acabados visando uma platéia assim mais elitista, está a todo dia na inglória luta de superar-se, texto após texto, no objetivo infernal de suprir este mundo doido, onde a Internet e Seu Milhão de Bits Diários se responsabilizam por deixar tudo volátil e comer a cabeça de criancinhas. Dia após dia, um blogueiro observará os seus vizinhos, perscrutando-os, vendo se já deixaram sua marca diária e rir-se de um ou outro quando vê um texto bobinho, dizendo “hi-hi, ele não se superou hoje” ou apenas “hi-hi”. E é árduo o acompanhamento das visitas, de “quantas pessoas leram esse meu texto? Hmm, hoje foram quatro mil e duzentas ha-ha-ha”, porque se um certo dia foram somente quatro mil pensa-se “Hmm” apenas.

Aquele que se preza em ter um blog bonito porque é um profundo esteta, e aqui me refiro apenas aos bons blogueiros – um dia, como todos, já fui um mau blogueiro, mas eu ainda não tinha barba. Agora já tenho uns tantos fiapos, olha aqui ó –, aquele que se preza tem esse tipo de preocupação: leitores. The same way os escritores, preocupados com as emissões da Editora dizendo-lhe “45 vendidos essa semana, Sir”. Um homem que escreve deseja saber que efeito suas palavras tiveram na cidade, no país, no planeta, porque todo homem que escreve tem esse tipo de ambição. Não tivesse e seus escritos não estariam publicados, pois o fato é que nenhum que se acredite dono de alguma habilidade fraseológica dá-se calado por muito tempo. O blog apenas veio facilitar o exercício de arrogância diário destes senhores. Desse modo, ao passo que a arrogância precisa de platéia para estabelecer-se, o blogueiro precisa de leitores para manter-se. E aí está sempre nessa batalha para não ser engolido, eternamente a redigir.

Um a seu lado a sofrer pelas diárias demonstrações de pobreza de espírito por parte dos colegas e dos professores e do Jornalismo. O outro, pela flutuação no gráfico de seus leitores. Dois martírios que só se faz cumprir nesta vida porque, afinal, existem outros muito piores. O mal, porém, consiste em que alguém tente assumir as duas funções de uma vez, como neste exato momento se dá o meu caso. Impossibilito-me de sucumbir porque não me é dado preocupar-me tanto com essas coisas, mas preciso admitir-lhes, na ânsia de sua compaixão irrestrita, que minha vida tem andado assaz sofrida. Ok, exagero. Mas preciso de férias. E rápido.