Pelas causas pequenas

July 3, 2007

Sou só um estudante bem rico e esbanjador, então nunca tive que ficar cozinhando para mim mesmo. Tenho ninfas próprias para colocarem uvas maduras na minha boca, seguido de um beijinho rápido, desses que pegam metade na boca e metade no rosto, para atiçar um pouco da libido e um pouco do sentimento em cada vez.

Mas nalgumas vezes as ninfas têm que tirar férias, visto que o sindicato das ninfas é muito rígido. E nessas vezes eu preciso me virar com a comida aqui de casa. Se quiser comer, tenho que preparar eu mesmo. O que geralmente acaba me levando a um pacote de Miojo, refeição muito prática e saborosa.

Numa dessas vezes, enquanto eu lia a receita atrás do pacotinho para fazer tudo direitinho, notei uma enorme imperfeição num dos passos. Dizia lá: “deixe ferver por três minutos”. Leitor atencioso que sou, não deixei passar tão absoluta falha; erro grave que pode tornar o produto muito perigoso.

Viu, e se por acaso eu precisar fazer uma viagem a uma velocidade de, supomos, uns 999.999.999 km/s? É, e se eu precisar dar uma viajadinha na velocidade da luz e tal? Daí eu me ferro? Porque para um observador inercial eu posso estar parado no tempo. E aí, como é que fica? E se por um acaso um amigo meu tiver que viajar, sei lá, na velocidade da luz e eu for o seu referencial inercial? Aí eu vou ter que ficar esperando o meu Miojo ferver por toda a eternidade, é isso? Tão me tirando?

Essa receita oferece riscos por não compreender fatores básicos como, por exemplo, o de viajar na velocidade da luz. Se vamos virar ondas quando fizermos isso, é o que menos importa. A questão aqui é que eu, como consumidor, sinto-me lesado por ter que seguir uma receita tão pobre em termos de significado físico-quântico além do estético, porque nem escrita com arte ela é.

Mas basta que fiquemos em casos mais desimportantes como, por exemplo, o de um alpinista (fosse importante para alguém e não andaria por aí a escalar paredões). Imagine que a mãe de um alpinista, muito preocupada com sua alimentação, encha a sua mochila de Miojos, aí, lá está o alpinista a trocentos metros do chão, sem nenhum McDonalds por perto, quando abre sua mochila atrás de um Ruffles e acha apenas vários pacotes de Miojo. A trocentos e tantos metros do chão, sem nem mesmo um Habibs, ele faz sua fogueira e, conformado, vai preparar o macarrão.

Só que, a trocentos e tantos metros do nível do mar, a água ferve a bem menos que 100 graus; vamos supor, a uns 90. O alpinista coloca uma panelinha com dois copos e meio de água para ferver e quando observa a formação de vapor, de pronto e muito astutamente, pensa que ela está a 100 graus, ao que adiciona o macarrão. Mas nós sabemos que ela só está a 90, e, em decorrência, o Miojo vai demorar bem mais que três minutos para ficar pronto. Nós sabemos, mas o alpinista não; por isso, ele segue os passos e ao cabo dos três minutos pontualmente tira o macarrão do fogo, mistura o temperinho e vai esbaldar-se.

E aí? Aí que o alpinista vai comer macarrão cru, e pode até ter uma intoxicação, poxa. Imagine a situação, ficar intoxicado por macarrão cru a trocentos metros do nível do mar. Ninguém poderia ajudá-lo, mesmo que, num inimaginável golpe de sorte, estivesse passando por ali um médico, pois não me consta que algum plano de saúde dê cobertura a “intoxicação a trocentos metros do nível do mar”. Isso não se faz. Vou processar a fábrica do Miojo e não descansarei enquanto não estiver a salvo o último dos alpinistas. Eu quero justiça.

5 Responses to “Pelas causas pequenas”

  1. Hugo Says:

    Eu, estudante bem pobre mas ainda esbanjador, digo-te que estás errado. Miojo é uma invenção tão perfeita que mesmo cru, sem tempero ou contato com a água, ainda serve de alimento para qualquer criatura. O alpinista não só estaria são e salvo, como ainda poderia obter uma refeição rápida e sem qualquer dificuldade culinária.

    Quanto à velocidade da luz, tenho de concordar contigo. Essas empressas não dão a mínima pras deformações do espaço-tempo de seus consumidores. Canalhas!

  2. théo Says:

    Porra, nunca havia pensado nisso. Aliás, já experimentou jogar um ovo junto com o miojo na água fervendo? Gases espontâneos, mas fica uma beleza.

  3. elemar Says:

    cagha logo se ve que tu nao procurou na prateleira dos miojos para alpinistas.alem do mais ele podia comprar bolachas pra namorado-alpinistas.

  4. Luis Imperator Says:

    É, dael… o nível tá caindo, não? é por essas e outras que eu só escrevo de estação em estação.


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