Das coisas que mudam de donos

July 4, 2007

Mandaram pedir um livro antigo lá em casa, um livro que estava emprestado de uma velha conhecida minha. Por algum acaso da vida, nos desencontramos e fiquei com um objeto seu, algo que, na minha estante, tinha já um lugar bastante especial.

Não faz sentido isso de requisitar velhos bens às pessoas com que por algum motivo nos desentendemos ou viemos a nos afastar. Um livro, uma blusa, um CD, que tenham sido emprestados mudam de dono no exato instante em que os elos se partem por qualquer que seja a razão.

O seu livro (não qualquer um, talvez eu mudasse o discurso diante dos Tolkien) que está com aquela senhora a quem muito amor foi dedicado, muitas carícias foram doadas e muitas palavras doces foram destinadas, torna-se propriedade tão-somente dela quando o amor resolve ir dar em outras bandas. E isso tem sua razão de ser.

Primeiro por que, como diria algum sábio oriental, há coisas que não pertencem a quem as têm. Há muitas coisas que estão nos lugares errados e, por isso, o mundo é tão infeliz. Segundo, as coisas que estavam emprestadas para outrem, estavam emprestadas por algum motivo. Porque talvez as demos na ânsia de compartilhar parte deste mundo com elas; porque você confiava nelas o suficiente para emprestá-las um álbum do Floyd; porque você deixou aquele dia que esteve em sua casa e lá ele ficou.

E é extremamente importante que se mantenha esse tipo de laço, porque por mais dispendiosa que tenha sido a separação, sempre haverá a lembrança dos bons momentos em detrimento dos maus, que vão sendo esquecidos pouco a pouco. Assim, os objetos estarão lá como uma forma de nostalgia saudável cada vez que são avistados. Mais, são eles próprios que se farão capazes de manter algumas das boas lembranças de pé. Se fossem mantidos com seus novos donos, estariam lá sempre a ter um significado em suas vidas.

O livro, por seu tempo, o que estava em minha estante, esse estava lá com tantos outros, cada um com sua própria história além da história. Eu podia então falar aos que me auscultassem: “este aí foi dela”, palavras que sairiam embalsamadas em um certo prazer pessoal. “E este aí ao lado foi do velho Jack”, “aquele outro comprei em cidade de Pedro” etc.

Essa é a constituição mais sensata de uma biblioteca, com livros envolvidos por pequenos casos e pessoas e vidas. Daí o valor dos livros usados, daí o valor de se passar tardes em pequenas lojas empoeiradas a perscrutar novos números. Seja de borboletas ou selos, cada coleção é um pequeno retrato do mundo. Cada livro tem sua própria história, à qual você passa a pertencer no minuto em que o compra. E a pessoa a quem – ou de quem – você emprestou. E a história que vocês tiveram juntas. E o sucedido fim.

Quando os tempos forem outros, e você estiver mudado e todo mundo estiver mudado, aquele velho item poderá ser comentado numa conversa casual que porventura possa acontecer com seu antigo dono e será tratado com indiferença pois já está novamente lúcida a visão de ambos depois de tanto já se ter demonizado o passado.

Solicitar algo que está em propriedade de nova pessoa é demonstrar um certo aspecto tacanho e vil da natureza humana, do qual os mais elevados seres não tomaram nota.

E não reclamem do sentimentalismo. Fico melancólico no inverno.

5 Responses to “Das coisas que mudam de donos”

  1. Ed Says:

    Concordo contigo. Nessas ocasiões eu sempre uso a técnica da mnemósine falha: “sério?, ficou comigo?”

  2. izabel Says:

    Então podemos dizer um ótimo jeito de aumentar coleções é investir em pegar emprestado somente de relações enfraquecidas? Ou a solução seria enfraquecer as relações em nome do apego aos livros, cds e dvds?🙂

    By the way, blog muito bom, parabéns.

  3. Dael Says:

    Se vocês não notaram, essa é uma questão emotiva. Então saiam, saiam, seus interesseiros.

    =]

  4. bel Says:


    Eu tenho apego emocionais a cds, dvds, livros… Incompreensível. ):

  5. bel Says:

    (era pra ser uma pergunta. incompreensível?)


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