O que estarei escutando nas férias

July 14, 2007

Outro dia um desses aí veio implicar quando eu disse que escutava Los Hermanos, coisa que eu faço com respeitosa deferência. Se esta sociedade ainda retivesse um pouco do juízo que tinha outrora, ainda poderia intimar esse senhor para um duelo, de modo que ele pudesse pagar com sua vida a displicência de falar mal dessa que é uma das coisas melhores que este país já produziu – e que como se sabe, não são muitas. Infelizmente, não posso incorrer para esta opção, então fico aqui de longe xingando-o e dando cuspidas no chão para indicar meu desprezo – “patife”, cusp, “calhorda”, cusp, cusp, talvez um “corno”, rrr, cusp, pra esculhambar com a sem-vergonhice do cidadão.

Meu gosto musical é finest, belo, saudável para a alma, e foi obtido em regimes longos em conservatório, com um mestre japonês me batendo com uma varinha quando eu ousava tocar Caetano Veloso ou Legião Urbana. São poucas as pessoas que possuem um gosto tão refinado e eclético quanto o meu. Porque há os que entendam tudo de post-rock, mas ao escutar algo diferente apelam já para o metal, escutam Rush – que é o máximo do metalizado que aguento mencionar, mais que isso meus tímpanos estourariam e eu me colocaria surdo para o resto da vida.

Da minha parte, conheço as coisas boas de cada estilo que aí está disponível, porque minha alma são várias. Mas entenda-se desde o princípio que algumas coisas nem podem ser chamadas de estilo. Metal, por exemplo, um estilo? Você acha que aquilo é um estilo? Deus do Céu, metal deveria dar calafrios em qualquer cidadão honrado – por isso deve-se desconfiar da índole de qualquer metaleiro. Pagode? Deus do Céu, um estilo? Apelação, meu filho, apelação. Funk, ok, vou admitir que funk possa ser um estilo. Não se pode negar que representa o desprendimento total das classes, no êxtase puríssimo de sexo, sexo, sexo. Mas é um desprendimento tão grotesco que me faz pensar “oh, Deus, que falta de elegância” e sair dando cuspidinhas no chão.

Enfim, as pessoas querem saber o que escuto, ficam se perguntando alarmadas, com cara de pânico às vezes, como naquele quadro do Munch, que se vocês não sabem qual, posso fazer um desenho para que se lembrem:

O Grito

O horror, o horror.

Bem, eu escuto Beethoven, o que, para o cidadão médio pode ser considerado cult. Gosto dessa palavra aí, cult. Fui conhecer ela, digo, o seu uso mais banal, na faculdade. As pessoas começaram a dizer que escutar Beethoven, e até mesmo Los Hermanos, é coisa de cult. E que portanto eu era um cult. Quando perguntei o que queriam dizer, responderam “se você escuta isso então é cult, né?”, ou “se você escreve desse seu jeito cult, então você é… você é cult, né?”. Enfim, escuto um pouco de Haydn e muito de Mozart. De erudita, só mesmo o classicismo me interessa, porque é como um sopro divino. Sou um senhor sensível, de maneira que meus sentimentos ficam a mercê do violino. Quando ocorrem aquelas mudanças bruscas que o Haydn usava como uma forma de “acorda aí, meu”, levo um susto emocionado dizendo “Esse Haydn me mata, esse Haydn me mata”.

Afora o erudito, aprecio Radiohead, que por si só, já coloca meu gosto acima de qualquer desses bobinhos aí. Escuto Pink Floyd. Nesse bolo já temos uns três gênios (eu disse gênios): Thom Yorke, Roger Waters e Syd Barrett. De gênio ainda, dessa vez um brasileiro, Tom Zé. Metade dos que criticam a música brasileira, jamais ouviram falar em Tom Zé, porque se ouviram e ainda mantém essa posição, é que são uns idiotinhas querendo atenção. De brasileiros, tem mais recentemente Supercordas, uma banda carioca que ressuscitou um rock sessentista mesclando com elementos rurais e obtendo um som extremamente viajante.

A lista de coisas boas vai longe, mas vou mencionar apenas o que estarei escutando nessas três semanas em que estarei longe desta casa. Pois é, as férias finalmente chegaram e vou adentrá-las no mais alto estilo, escutando boa música, terminando de ler o Hesse que tenho cá (enquanto dois Nabokovs me esperam ansiosos, se mexendo empolgadinhos na prateleira), e pondo o pé na estrada.

(Eu tinha até uns textos começados, também sobre música, para postar no blog do Renmero, que ele me pediu pra dar uma chegada por lá as vezes, ver se está tudo em ordem, alimentar o cachorro, essas coisas, mas não os terminei em razão do peso que sobrecai sobre as costas do estudante em fins de semestre, portanto fica este parágrafo como mea culpa).

Já começo a me alongar demais, então citarei de uma vez os músicos que estarei ouvindo: Neutral Milk Hotel, Clap Your Hands Say Yeah, Knife, Strokes (que não pode faltar), Céu, Cat Power, um pouco de Arcade Fire (no caso de eu ficar um pouco pra baixo), e, hmm, acho que Pixies também. Vou escutar mais coisas, óbvio, mas a lista já vai grande demais para um só dia de aula. Até agosto, gentê.

9 Responses to “O que estarei escutando nas férias”

  1. amiga-abandonada Says:

    Gosto muito🙂

    Me ensina a escrever?
    Hmmmmmmmmmm

  2. Erivelton L. Says:

    Eu comecei a ouvir Bethoven há algum tempo, a música dele serve como um filtro que ajuda os momentos de leitura contra o barulho de TV, conversas, gritarias, incendios, aviões da Tam e etc…

  3. renmero Says:

    Ha ha. Cult.

    Mal sabem eles que a música pop é tão simples. E boa.


  4. Já ouvisse Orquestra Imperial, Dael?

  5. osrevni Says:

    Além do Tom Zé, tem também o Arrigo, que é sensacional. E o Hermeto. Inalcançável.

  6. Thaiana Says:

    Enfim, Los Hermanos é bom, não, é magnífico…
    Ahh! Amei o teu desenho (hsuaihehiahsiu! Matou a pau!)

  7. ulisses Says:

    Santino’s Face.

  8. Kerolyne Says:

    Meu Deus, que baitolescas essas cuspidinhas.

    Sim, eu voltei agora. =]

  9. B. Says:

    O triste…
    Comecei a ouvir Los Hermanos e fui ao show do Noites Carioca e da Fundição. E aí a banda acabou. O.o

    Ainda bem que Chico Buarque continua por aí, com olhão verde e violão…isso me consola um pouco.

    Qto à musica clássica gosto muito do Vivaldi e do Villa Lobos. Parece batido, eu sei, mas me emociono ao escutar o Trenzinho caipira.

    Isso me lembra tb do cinema e de Ennio Morricone. Sua trilha de Cinema Paradiso é top 10 do meu mp3player. Vc gosta?


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