Oi!O

August 31, 2007

Analiso que há aqui numa pastinha especial que mandei fazer com couro de crocodilos da Ásia, que são os melhores, para guardar uns textos que certas vezes me ocorrem como as enxurradas d’água de uma catarata, textos que no mais das vezes acabam vindo parar nesta casa, há diversas passagens que apenas foram começadas e depois morreram num repente como se alvejadas por uma bala perdida. E ficam ali, o início dos textos que talvez jamais encontrem sua continuação, nas linhas perdidas da eternidade, porque sua fonte de inspiração passou aqui por apenas um momento de sua grande estrada sem volta pelo universo da noosfera. Talvez estivessem fadados a não nascerem em minhas mãos esses começos de histórias, talvez jamais tivessem estado vivos, porque o mundo não está ainda preparado pra alguns deles, sabe-se lá; os desígnios do Todo-poderoso são misteriosos aos olhos dos mortais.

Então, faço esse introdutório sobre textos natimortos, porque nesses dias passados o fenômeno esteve acontecendo em grande escala por cá. Estive assim numa pequena crise, que obviamente não vou chamar de bloqueio criativo porque não sou burro, né gente? Bloqueio criativo é per se uma expressão burra. E se por ventura não o fosse, e existisse mesmo algo chamado, pff, desculpem, bloqueio criativo, só padeceria dessa circunstância alguém muito burro. O que se deu comigo foi que estive uns dias away e tal. Foram várias passagens um tanto bruscas por que passei em pouco tempo que puseram-me num torpor translúcido – que imagem linda essa de um torpor translúcido.

Vocês hão de entender, gente. Sou um estudante burguês como dizem por aí. Faço parte dos 1, 64 avos dos jovens em universidades (no Brazil, 10% do total) que pensam. Às vezes até penso nisso, que, como pode a educação no país ser tão precária e exígua?, e às vezes até me compadeço. Fico pensando na reitoria da instituição em que estudo ocupada por estudantes, e às vezes até sinto empathy. Mas outro dia eu estava andando pelo campus e vi um garoto vestido com uma grande bandeira do Che deixando à mostra apenas os tênis adidas limpinhos. Não há coerência, como nunca deve ter havido. Houvesse, contudo, e mesmo assim me preocuparia por alguns poucos segundos e não mais, porque esses jovens não entendem que há essas coisas que são inevitáveis no decurso da vida, coisas em que não se pode interferir porque o projeto do Homem não tem volta.

Seria meu desejo que todos estudassem e fossem ricos e inteligentes e tivessem bom gosto. O mundo seria mais elegante e todos os homens ainda poderiam se vestir como Gardel. E as mulheres poderiam ser como as dos salões da Paris descrita por Balzac. Mas isso nunca será. Por isso eu não gosto de falar sobre política, e a mera menção da palavra me faz virar o rosto levemente enjoado para o lado. Homens decentes não discutem política. Política é rude, porquanto não atrai as damas.

Tem uma coisa, agora que retomei, por assim dizer, as rédeas do blog: tentarei escrever umonte (sic). Haverei de ficar sem Internet nos próximos meses, de maneira que os textos que escrever terei que levar embalado num papel de presente brilhante, acho que celofane, para algum computador da Universidade e lá publicá-los ou lá mesmo escrevê-los, ainda não decidi. Mas isso não será impedimento; a julgar pelo prazer que me dá escrever esses pequeninos pedaços de vida, em nada mudará a rotina da casa, ao que me ponho a perguntar-me por que sou tão romântico com as trivialidades.

 

Don’t lose me now

August 28, 2007

Quando fui à cozinha, o que parece ter sido há poucos minutos, o relógio do microondas marcava 16 horas. Vejo então no canto do ecrã, quase engolido por milhares de janelas que agora parecem tão desnecessárias, o relógio que já marca 17:03. Vou de tarefas que não quero fazer para músicas que fazem o desalento repousar ao mesmo assento que eu. E não entendo bem o motivo. Parece às vezes que nunca se dormiu o suficiente e que quando se cerra os olhos em busca de um sonho tudo parece real como jamais o foi.

 

Uma amiga referindo-se ao vôo, que agora há de ser voo.

 

Começou naquele dia em que o menino viu a mãe ao telefone com a tia Patrícia. “Pois é, eu disse pra ela que ia ser assim. Não diz! Pois então. Ah! Minha filha, mas ela tem que escutar. É… Como quem diz que não quer mais nada com ele. Aham, aham”. O garoto tentava imaginar o que a tia estava dizendo do outro lado, mas quando chegou aquele “como quem diz” ele adorou. Nunca havia escutado aquela expressão; resolveu incorporá-la ao seu vocabulário para impressionar os amiguinhos.

Naquele dia mesmo, na escola, o garoto ficou tentando achar espaço para pôr em uso a sua nova expressão. As horas foram passando e nada. O garoto atento a qualquer pequena chance de enfiar um “como quem diz” na conversa. E nada. Até que a Luana da quarta série entrou no papo.

– A tia Lu falou que a prova de vocês não vai ser fácil.

– Como quem diz “aqueles capetas estão ferrados”.

– É.

O garoto ficou um pouco chateado pelo pouco caso que a Luana fez da sua nova expressão, que com certeza ela jamais ouvira. Por outro lado ficou muito feliz por finalmente ter conseguido usar o seu “como quem diz”. Foi-se embora sorridente.

No dia seguinte, a mesma coisa, no entanto não tardou muito para que o garoto encontrasse a chance de empurrar um “como quem diz” na conversa com os amiguinhos.

– Sabes que o Pedrinho disse pra Luísa que ela é bonita?

– Como quem diz “quero te namorar”.

– Foi corajoso. A Luísa é da sexta série.

– Como que diz “quero te namorar”.

– É. Não tinha pensado nisso, acho que ele quer namorar ela mesmo.

– Pois é.

No decorrer da semana o garoto foi usando seu “como quem diz” e foi demonstrando cada vez mais desembaraço na função. Foi ganhando experiência e com a experiência veio a fama. Os coleguinhas passaram a se interessar pela sua expressão e pela sua argúcia em detectar interesses. O garoto já não precisava se esforçar para colocar um “como quem diz” na conversa. Estava craque. Aquilo fluía com uma naturalidade que chamava a atenção de todos.

O garoto foi crescendo e nunca perdeu o seu jeito com o “como quem diz”. Ao contrário, foi aperfeiçoando-o cada vez mais. Agora, homem feito, ele já detectava ironias finíssimas e sarcasmos tortuosos para dizer o verdadeiro significado das palavras. Sempre valendo-se do seu “como quem diz”. Estava tão bom no assunto que, por vezes, explicava até às próprias pessoas o que elas tinham tentado dizer. “Disseste isso como quem diz ‘tua irmã tá de caso comigo’”. E a fama ganhou tal dimensão que o Homem do Como Quem Diz que já dispunha de uma considerável popularidade na cidade, passou a conselheiro.

Todos queriam saber alguma coisa do Homem do Como Quem Diz. Queriam interpretar o que tinha dito a vizinha fofoqueira do 402 ou qual a ironia que “aquele intelectualzinho de merda” tinha tentado me fazer engolir. Alguns chegavam até para desvendar sonhos.

– Sonhei com um touro de dois metros que me disse “ainda te pego”.

– Ele disse “ainda te pego” como quem diz “sua mãe tem três dias de vida”.

– Droga, eu jurava que ele queria me possuir.

Era assim. O Homem do Como Quem Diz já estava num nível tão avançado que detectava até mesmo previsões nas falas desconexas de touros e Rodrigos Santoros que habitavam os sonhos das garotas que costumavam suar muito.

Já não havia mais nada que o Homem do Como Quem Diz não filtrasse das palavras. O prefeito da cidade foi deposto porque o Homem do Como Quem Diz soube através de um discurso que ele estava pondo as mãos nos cofres públicos. A cada nova frase confirmada o Homem do Como Quem Diz ganhava mais fama.

Um grupo de acionistas de fora do país, todos vestidos com impecáveis ternos pretos, procuraram certa vez o Homem do Como Quem Diz para decifrar cada milímetro da Bíblia. Suspeitava-se que queriam o controle do mundo e precisavam da cabala implícita no grande livro. A Igreja interveio e o caso foi parar na justiça. “Onde já se viu interpretar as palavras de Cristo? Isso é profanação. Cristo diz e está dito” foi o apelo do Vaticano. Ninguém entendeu bem o que queria dizer aquilo, apenas o Homem do Como Quem Diz. Mas ele resolveu ficar calado, sabia que o destino de muitos estava em jogo e nesses muitos anos ele já tinha aprendido a se calar nas horas corretas.

Os acionistas não descansaram tão facilmente, e o caso seguiu rolando na justiça. Por sua causa o Homem do Como Quem Diz sofreu um atentado de morte que quase lhe custou a vida. Felizmente ele já tinha decifrado em algum lugar que ninguém sabe onde que sua morte estava predita, e desviou-se do tiro no momento certo. Entretanto todos passaram a temer pela vida do Homem do Como Quem Diz e, por isso, reforçaram a sua segurança.

Para um passeio simples, o Homem do Como Quem Diz agora tinha escolta pessoal. Começaram então alguns boatos de que o Homem do Como Quem Diz estava em algum trabalho secreto para o Governo, para decifrar intenções ocultas nos discursos dos grandes líderes. Nunca ninguém confirmou essa história, mas a economia da nação teve uma melhoria surpreendente depois dela.

A essa altura, o Homem do Como Quem Diz já era uma personalidade cultuada internacionalmente. Faziam-se romarias para escutar uma palavrinha que fosse de sua boca. Ele jamais abandonou a cidadezinha humilde em que nascera, mas de humilde a cidade já não tinha muita coisa. Com o advento do Homem do Como Quem Diz a cidade foi balançada pelo turismo, vinha gente de todo lugar do globo, chegou a evolução e a cidade tornou-se disputada pelas grandes empresas.

O culto do Homem do Como Quem Diz chegou a tal ponto de se venderem camisetas em que constavam as falas “Eu digo como quem diz” ou “Eu vi o Homem do Como Quem Diz e lembrei de você” na versão para presente, além de toda a sorte de itens com o tema “Homem do Como Quem Diz”.

Havia pulserinhas e bonequinhos que quando se puxava a cordinha diziam “Como Quem diz, Como Quem Diz”. E a expressão virou moda no mundo inteiro. “Amém” ganhou o sufixo “como quem diz ‘que assim seja’”. O simples “Olá” foi incorporado do “como quem diz ‘oi, como vai você?’”.

Os presidentes passaram a ter revisores treinados na ciência do “como quem diz” para não “dar bola fora” em seus discursos. Os pais tinham que tomar cuidado para que os filhos da “geração do como quem diz” não rastreassem palavras indecentes em suas frases.

Até que um dia o Homem do Como Quem Diz caiu de cama. Ninguém sabia o que ele tinha, os médicos não conseguiam descobrir nada, seu corpo era saudável, mas o Homem do Como Quem Diz afundava-se cada vez mais em seu leito. Houve suspeita de conspiração ou terrorismo. Mas o fato era que o Homem do Como Quem Diz estava morrendo e ninguém descobria o que ele tinha, e dessa forma ninguém poderia ajudá-lo e livrá-lo da morte. Nesse ritmo o fim era inevitável – os médicos já sabiam.

Então num descuido de um deles, enquanto consultava o Homem do Como Quem Diz, houve um deslize. O Homem do Como Quem Diz conseguiu captar das palavras do doutor a sua sentença de morte. Teria alguns dias de vida e nada mais.

As igrejas inundaram-se de fiéis. Muitos choravam e rogavam melhoras ao Homem do Como Quem Diz. Tudo em vão. Ele só definhava cada vez mais, e todos sabiam – o fim era iminente. A comoção foi mundial. Muitos países se puseram a disposição para qualquer coisa que fosse precisa. Mas nada se descobria. Os exames apontavam que o homem era saudável e, entretanto, ele já mal podia falar.

Mas ele falou. Foi no dia derradeiro. O Homem do Como Quem Diz estava consciente do fim, sabia que sua hora era chegada. Com muito esforço olhou para a médica que fora selecionada entre tantas pela honra de tratar do Homem do Como Quem Diz. Olhou para ela, abriu os lábios e disse apenas “tchau”. Como quem não diz nada.

passarinho

August 24, 2007

Desse jeito tu te escapas
Quando a ti me largo e vou,
Mas eis que quando te voltas
Minha vontade já passou

 

Geórgia

August 23, 2007

Agora estou mais chique, reparem. Estava com um bocado de vontade de usar Geórgia, que eu considero a mais alta patente a que um texto de blog pode aspirar. E ficava pensando em trocar o layout para um que oferecesse Geórgia como tipo. E lia outros blogs e ficava intrigado por ter de ler em outras palavras o meu próprio ideal. Resolvi que gosto bastantinho deste layout, de modo que saí apenas do discurso e entrei de vez na ação modificando o corpo destas recém traçadas. Os posts antigos permaneçam tal como foram concebidos, porque a obra já está morta no dia em que nasce.

=]

August 22, 2007

Tenho um saco de coisas para contar, mas em nenhuma delas vocês iriam acreditar, de modo que me pouparei o trabalho. Fato é que redijo este texto da mesmíssima cadeira que citei uns posts atrás, posicionada no mesmíssimo cômodo que permite-me uma visão privilegiada de uma mata ainda intocada em plena metrópole. A mudança não aconteceu de acordo com o que se esperava, e isso foi dar-se depois que eu já a havia iniciado. Fiquei então por uns dias com meus trapinhos divididos entre uma casa e outra. Passei dias terríveis, uma vez que a primeira coisa que havia levado com um carinho especial foi minha caixa de livros. Foram longas as horas em que fiquei sem um Miller sequer para ler. Depreendeu-se que passei longas horas refletindo sobre mim mesmo, observando a vida escorrer em pequenas gotas brilhantes que batiam no vidro da janela. Entrementes, padeci, não lhes vou negar, de alguma angústia. Mas isso é passado e digo isso alinhando a gola da camisa. Vejam só que já voltou Joyce para que retomemos nossa milonga de outro dia. E se estou ouvindo agora os gritos lamentosos de Okkervil River é apenas por amor à tinta da melancolia. Raciocinava sobre a estética de uma conversa num desses instant messengers que se vê por essa vida, hoje em dia é tanta tecnologia que pfui até me espanto. Em como alguns dos usuários mantém discursos assim tão feios quanto suas fuças, não se importando nem mesmo com a fonte que utilizam para escrever suas balbúrdias. É esse um tema em que poderia me estender longamente, entretanto não representa o que queria falar. Falo neste momento das risadas, porque é nelas que se esconde o verdadeiro espírito. Se é na tristeza que se revela a condição do homem, é no sorriso que se esconde sua transgressão. Repare em alguém que se ri com rsrsrs, uma abreviação óbvia mas não lógica dos (risos), o único resquício de humor do jornalismo. Alguém que ri rsrsrs é alguém que dá sempre uma risada um pouco apavorada logo tentando-se conter para não chamar a atenção. Não são pessoas das quais se convém ficar perto e isso não por convenção, isso por resguardo mental. Por outro lado há os que riem kkkkkkk. Imagine uma pessoa sensata abrindo a boca uns 5 centímetros e movimentando as mandíbulas como um pacman a fim de permitir a sonorização de um kkkkkkkkk. Não dá. Não tem como imaginar alguém honrado fazendo isso. Há tanta maneira mais sensata de redigir uma risada, mas Há! Ho! Há! como faria o Allan Poe não parece uma delas. Tem um ou outro que usa o Ah! Ah!, o que eu sinceramente não consigo enxergar como uma risada tendendo sempre a imaginar que o personagem está sendo perfurado por repetidas facadas. Um hahaha costuma sair-se bastante bem. Um haha também. Um hehehe jamais. Ao ver um hehehe pense num daqueles bonecos da revista Mad pronunciando um hehehe escarnioso e aí você vai ser um lixo sendo rebaixado por um personagem monstruoso e então toda a sua família vai lhe repelir como a Gregor Samsa. O hihihi é conveniente e hilário se for usado nas horas certas e ainda assim com muita parcimônia. A classe do hohoho ainda não recebeu significativo estudo de minha parte, mas huhuhu é ok. Há bastantes variações mas devem ser usadas com cuidado.