Em absoluto

August 17, 2007

Mas tem esses dias em que você acorda assim triste. Estava agora há pouco assistindo à cena do tango, uma das pérolas mais bem polidas que o cinema já concebeu. E escutando a Opus 132 de vocês sabem quem, e pensando que como pode as pessoas não gostarem de música sem letras, sem poesia explícita, porque esses gênios que conseguem se expressar mesmo sem isso tudo é que são os dignos de serem escutados.

Hoje é o dia da minha mudança, vou juntar meus pertences e levá-los comigo à nova morada. E isso tudo é um pouco triste, ter de deixar um lugar em que de certa forma você já tem raízes, tem histórias e tem vida. Ontem dediquei a tarde a encaixotar as coisas que estavam espalhadas, retirar cuidadosamente os adereços das paredes, remover os pequenos objetos que foram adornando o lugar ao logo do tempo, itens de uma coleção particular, da construção de uma realidade menos desagradável. Não consegui retirar um que foi um quadro pintado na própria parede por um caro amigo. Este ficará aí até que seja engolido pela reforma que deve se operar nos próximos dias – o motivo de minha partida. A dona do lugar resolveu ir para uma nova fase de sua vida e terá de vender este espaço. Espero que sua empresa resulte em bons frutos. Espero que minha nova vida também.

Abandonarei hábitos como olhar pela janela a contemplar a pequena porção de mata atlântica que tenho como vista. Terei de ajustar-me a dormir em um novo lugar, com novos sons, novas nuances de caráter. E ao andar para a faculdade terei um novo caminho, darei com pessoas novas, o que certamente será oportunidade de me decepcionar um pouco mais com o gênero humano. Está tão difícil encontrar bons pares nesses dias que conhecer novas pessoas é quase um exercício de acumular desencantos. Sou alguém que não consegue conversar com muitos habitantes do planeta rotina. Poderia dizer que isso se dá porque poucos deles atingem um nível aprazível, mas é bem provável que seja apenas falta de competência minha.

Mas não levem a mal. Sou pessoa bastante alegre at all. Felizmente, não é acaso, todos têm esses dias em que as coisas parecem mais cinzas; é a lei da vida, ninguém pode sorrir sempre. Aí, nessas ocasiões, preciso de algum ombro cúmplice e amigo em que acalantar-me, seja do jovem Johnnie seja do velho John. É pena que minhas reservas tenham acabado por esses dias, e como as economias têm se ido rápido, porque afinal, vive-se o momento acima de tudo, acredito que por ora terei de conformar-me com o acercado Luiz Alves, um outro grande parceiro.

Volto quando o frio passar.

One Response to “Em absoluto”

  1. B. Says:

    Já não posso dizer o mesmo que vc sobre conversar com pessoas pelas ruas. Tenho o hábito de puxar assunto principalmente qdo estou indignada com alguma coisa. Se tem um atraso no aeroporto e começa uma confusão pode apostar que eu tô lá nas bocas reclamando…rs. Mas vc sabe que assim conheci muitas historias curiosas e algumas até renderam bons posts.
    Boa sorte na mudança, que bons ventos soprem para ti.


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