Conto que escrevi aos 6 anos, diante do quê fui expulso da escolinha

August 24, 2007

Começou naquele dia em que o menino viu a mãe ao telefone com a tia Patrícia. “Pois é, eu disse pra ela que ia ser assim. Não diz! Pois então. Ah! Minha filha, mas ela tem que escutar. É… Como quem diz que não quer mais nada com ele. Aham, aham”. O garoto tentava imaginar o que a tia estava dizendo do outro lado, mas quando chegou aquele “como quem diz” ele adorou. Nunca havia escutado aquela expressão; resolveu incorporá-la ao seu vocabulário para impressionar os amiguinhos.

Naquele dia mesmo, na escola, o garoto ficou tentando achar espaço para pôr em uso a sua nova expressão. As horas foram passando e nada. O garoto atento a qualquer pequena chance de enfiar um “como quem diz” na conversa. E nada. Até que a Luana da quarta série entrou no papo.

– A tia Lu falou que a prova de vocês não vai ser fácil.

– Como quem diz “aqueles capetas estão ferrados”.

– É.

O garoto ficou um pouco chateado pelo pouco caso que a Luana fez da sua nova expressão, que com certeza ela jamais ouvira. Por outro lado ficou muito feliz por finalmente ter conseguido usar o seu “como quem diz”. Foi-se embora sorridente.

No dia seguinte, a mesma coisa, no entanto não tardou muito para que o garoto encontrasse a chance de empurrar um “como quem diz” na conversa com os amiguinhos.

– Sabes que o Pedrinho disse pra Luísa que ela é bonita?

– Como quem diz “quero te namorar”.

– Foi corajoso. A Luísa é da sexta série.

– Como que diz “quero te namorar”.

– É. Não tinha pensado nisso, acho que ele quer namorar ela mesmo.

– Pois é.

No decorrer da semana o garoto foi usando seu “como quem diz” e foi demonstrando cada vez mais desembaraço na função. Foi ganhando experiência e com a experiência veio a fama. Os coleguinhas passaram a se interessar pela sua expressão e pela sua argúcia em detectar interesses. O garoto já não precisava se esforçar para colocar um “como quem diz” na conversa. Estava craque. Aquilo fluía com uma naturalidade que chamava a atenção de todos.

O garoto foi crescendo e nunca perdeu o seu jeito com o “como quem diz”. Ao contrário, foi aperfeiçoando-o cada vez mais. Agora, homem feito, ele já detectava ironias finíssimas e sarcasmos tortuosos para dizer o verdadeiro significado das palavras. Sempre valendo-se do seu “como quem diz”. Estava tão bom no assunto que, por vezes, explicava até às próprias pessoas o que elas tinham tentado dizer. “Disseste isso como quem diz ‘tua irmã tá de caso comigo’”. E a fama ganhou tal dimensão que o Homem do Como Quem Diz que já dispunha de uma considerável popularidade na cidade, passou a conselheiro.

Todos queriam saber alguma coisa do Homem do Como Quem Diz. Queriam interpretar o que tinha dito a vizinha fofoqueira do 402 ou qual a ironia que “aquele intelectualzinho de merda” tinha tentado me fazer engolir. Alguns chegavam até para desvendar sonhos.

– Sonhei com um touro de dois metros que me disse “ainda te pego”.

– Ele disse “ainda te pego” como quem diz “sua mãe tem três dias de vida”.

– Droga, eu jurava que ele queria me possuir.

Era assim. O Homem do Como Quem Diz já estava num nível tão avançado que detectava até mesmo previsões nas falas desconexas de touros e Rodrigos Santoros que habitavam os sonhos das garotas que costumavam suar muito.

Já não havia mais nada que o Homem do Como Quem Diz não filtrasse das palavras. O prefeito da cidade foi deposto porque o Homem do Como Quem Diz soube através de um discurso que ele estava pondo as mãos nos cofres públicos. A cada nova frase confirmada o Homem do Como Quem Diz ganhava mais fama.

Um grupo de acionistas de fora do país, todos vestidos com impecáveis ternos pretos, procuraram certa vez o Homem do Como Quem Diz para decifrar cada milímetro da Bíblia. Suspeitava-se que queriam o controle do mundo e precisavam da cabala implícita no grande livro. A Igreja interveio e o caso foi parar na justiça. “Onde já se viu interpretar as palavras de Cristo? Isso é profanação. Cristo diz e está dito” foi o apelo do Vaticano. Ninguém entendeu bem o que queria dizer aquilo, apenas o Homem do Como Quem Diz. Mas ele resolveu ficar calado, sabia que o destino de muitos estava em jogo e nesses muitos anos ele já tinha aprendido a se calar nas horas corretas.

Os acionistas não descansaram tão facilmente, e o caso seguiu rolando na justiça. Por sua causa o Homem do Como Quem Diz sofreu um atentado de morte que quase lhe custou a vida. Felizmente ele já tinha decifrado em algum lugar que ninguém sabe onde que sua morte estava predita, e desviou-se do tiro no momento certo. Entretanto todos passaram a temer pela vida do Homem do Como Quem Diz e, por isso, reforçaram a sua segurança.

Para um passeio simples, o Homem do Como Quem Diz agora tinha escolta pessoal. Começaram então alguns boatos de que o Homem do Como Quem Diz estava em algum trabalho secreto para o Governo, para decifrar intenções ocultas nos discursos dos grandes líderes. Nunca ninguém confirmou essa história, mas a economia da nação teve uma melhoria surpreendente depois dela.

A essa altura, o Homem do Como Quem Diz já era uma personalidade cultuada internacionalmente. Faziam-se romarias para escutar uma palavrinha que fosse de sua boca. Ele jamais abandonou a cidadezinha humilde em que nascera, mas de humilde a cidade já não tinha muita coisa. Com o advento do Homem do Como Quem Diz a cidade foi balançada pelo turismo, vinha gente de todo lugar do globo, chegou a evolução e a cidade tornou-se disputada pelas grandes empresas.

O culto do Homem do Como Quem Diz chegou a tal ponto de se venderem camisetas em que constavam as falas “Eu digo como quem diz” ou “Eu vi o Homem do Como Quem Diz e lembrei de você” na versão para presente, além de toda a sorte de itens com o tema “Homem do Como Quem Diz”.

Havia pulserinhas e bonequinhos que quando se puxava a cordinha diziam “Como Quem diz, Como Quem Diz”. E a expressão virou moda no mundo inteiro. “Amém” ganhou o sufixo “como quem diz ‘que assim seja’”. O simples “Olá” foi incorporado do “como quem diz ‘oi, como vai você?’”.

Os presidentes passaram a ter revisores treinados na ciência do “como quem diz” para não “dar bola fora” em seus discursos. Os pais tinham que tomar cuidado para que os filhos da “geração do como quem diz” não rastreassem palavras indecentes em suas frases.

Até que um dia o Homem do Como Quem Diz caiu de cama. Ninguém sabia o que ele tinha, os médicos não conseguiam descobrir nada, seu corpo era saudável, mas o Homem do Como Quem Diz afundava-se cada vez mais em seu leito. Houve suspeita de conspiração ou terrorismo. Mas o fato era que o Homem do Como Quem Diz estava morrendo e ninguém descobria o que ele tinha, e dessa forma ninguém poderia ajudá-lo e livrá-lo da morte. Nesse ritmo o fim era inevitável – os médicos já sabiam.

Então num descuido de um deles, enquanto consultava o Homem do Como Quem Diz, houve um deslize. O Homem do Como Quem Diz conseguiu captar das palavras do doutor a sua sentença de morte. Teria alguns dias de vida e nada mais.

As igrejas inundaram-se de fiéis. Muitos choravam e rogavam melhoras ao Homem do Como Quem Diz. Tudo em vão. Ele só definhava cada vez mais, e todos sabiam – o fim era iminente. A comoção foi mundial. Muitos países se puseram a disposição para qualquer coisa que fosse precisa. Mas nada se descobria. Os exames apontavam que o homem era saudável e, entretanto, ele já mal podia falar.

Mas ele falou. Foi no dia derradeiro. O Homem do Como Quem Diz estava consciente do fim, sabia que sua hora era chegada. Com muito esforço olhou para a médica que fora selecionada entre tantas pela honra de tratar do Homem do Como Quem Diz. Olhou para ela, abriu os lábios e disse apenas “tchau”. Como quem não diz nada.

2 Responses to “Conto que escrevi aos 6 anos, diante do quê fui expulso da escolinha”

  1. Fabiane Says:

    Uau!
    Como quem diz: muito bom mesmo!

    Impressionante…🙂

  2. Lali Says:

    ^^

    que gandiiiiiiiiiiiiiiiiii
    haoiahaoihaoiahaoiahoaiha

    bjo deco
    =***


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