Ok this one’s for Gabby

September 30, 2007

O problema de um blog ter esse formato aberto, leitura para quem quiser, é que esse quem quiser é quem quiser realmente mesmo quando esse quem quiser se refere à tia de quem você falou mal três posts atrás. E não venha com esse papo barato que você já começou a tirar do bolso, George Boy; eu sei muito bem que manter um blog nada tem a ver com manter um diário – embora lutasse com espadas à honra de que o blog tenha essa aura de diário pois que isso tem seu quê romântico – o blog é mais que isso, está em outro nível: não serve apenas para narrar os umbiguentos momentos, e reclamar de falta de privacidade seria idiotice. A questão aqui, senhores, é muito mais profunda, muito mais profunda.

A escrita é um refúgio, é a verdade. E isso é tão lógico que não se pode negar. A escrita é o bunker dos poetas, o ombro parceiro do amargurado, o companheiro fiel do boêmio que tem motivos nobres para ser boêmio; motivos que as almas pequenas jamais compreenderão, motivos que fariam os cabelinhos das costas de uma senhorita inexperiente recrudescer-se para um frêmito de pavor e compaixão que a perpassaria da cabeça aos pés. E é fato que uma vida mais sofrida garante um texto bastante melhor. O escritor que sofre é o que verte uma prosa mais bela, conquanto este sofrimento corresponda a uma vida de mais intensidade, mental ou física. Os quais tiveram tempo de tornar-se íntimos da pena foram os que mais desgostos tiveram. Isso, porém, se reflete na fonte e não na obra; se bem que os grandes tenham um ritmo sempre regido na clave da melancolia.

Sendo então o amparo, é inevitável que vez ou outra se imprima no papel uns versos de cumplicidade. Posto o quê, é inevitável que vez ou outra se escreva sobre uns assuntos mais assim. Nenhum problema até então. Eles começam quando esses assuntos e impressões dizem respeito a pessoas próximas que tenham tomado nota da existência do blog. Há o jeito difícil de se resolver isso que é escrever e trancar a folha à chave na gaveta da escrivaninha. Difícil porque custa muito aos literatos segurar para si as pequenas pedras que lapidam. No geral, são as pedras em que seu trato mais se aprimorou durante a vida e, portanto, as partes que melhor têm para oferecer de si à batalha contra a mediocridade. É difícil para estes senhores que se contenham pois detêm consigo, à custa de muita dedicação, conhecimentos milenares de caráter e sabedoria, aham. O jeito fácil é publicar de uma vez e atirar essas pedras para o alto, a fim de que tenham início suas trajetórias pelo infinito até que encontre-as, neste mundo ou em outro, alguém que delas necessite.

O que teria dito, pura e simplesmente dito, em outro momento qualquer, dizia respeito à poesia do vinho, essa tão nobre bebida que serve aos deuses desde que o homem é homem, e que apesar de uma poética rebuscada, talvez somente tenha a dizer que as coisas apenas são, e que o vinho deve ser apreciado tendo-se isso em mente; tendo à mão que os conhecimentos todos tornam-se supérfluos no momento em que atingimos o âmago dos prazeres. Assim é que ensina Mestre Caeiro, e não por acaso é entre todos o Mestre.

O problema de um blog ter esse formato aberto, leitura para quem quiser, é que teria ido além disso, e depois de uma visita mais à taça que no momento tenho por companheira, me debruçaria ternamente sobre alguns temas que colocam um homem vulnerável, assim que me calo à força do silêncio.

 

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post novo

September 21, 2007

Ah, é verdade, tenho escrito pouco (e aos poucos), porque tenho me sentido a little space out, essas coisas. Outro dia até joguei uma laranja fora e comi a casca (mentira). O fato é que não dou mais bola para os estudos nem para ninguém mais e prefiro ficar em casa lendo, ou assistindo a um filminho, sentadinho no meu canto ali que ficou tão aconchegante e quentinho nesta nova residência, precisam ver. Outro dia lia Madame Bovary, agora leio Lolita e logo estarei a ler Ana Karenina, que agora só leio livros com nomes de mulheres (mas quando dou o suspiro de cansaço dizendo “chega, mulher! Por Deus!”, há aqui uns volumes que degusto aos poucos. Há esse sobre as contraculturas, esse outro de um físico que ainda tem fé na humanidade, o que apesar de contrariar minhas idéias, é bastante agradável de ler, só pela sensação de conhecer o ideário do meu antagônico –, e finalmente um daquele de quem “a vida não pode narrar-se pois que não há nela mais de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida. Em tudo o mais não houve incidentes, nem há história”, isto é, Alberto Caeiro e por aí vai). Mas não hei de falar das minhas leituras quando isso só diz respeito a mim.

Vai indo desde que acordei um dia fechado, o firmamento se encrispando com tons de cinza e branco, dando vida a formas diversas, como se o céu fosse o próprio mundo se diluindo nos vales da morte. E é exatamente por isso que decido escrever-lhes mesmo que para publicar amanhã ou depois, em algum computador com Internet, que estou em regime fechado agora*. Escrevo-lhes mesmo que minha vida, a que se vai voluptuosamente alongando no decorrer destes dias, possa não interessar. É que temos essa necessidade de saber como vão as horas do outro, de conhecer uma outra interpretação dos momentos, especialmente quando os nossos estão indo não muito bem, andam pouco prospectos, pouco interessantes em face da reação que a rotina causa no gênero (não é bem meu caso, minha vida vai indo pelo alvorecer, ao lado de um otimismo displicente que, mesmo à luz dos fatos, a juventude permite ter, mas ponham-se à vontade para registrar seus pedaços coloridos de existência na caixa de comentários; aposto que todos irão ler agradecidos com a mão no peito assim). (Mas em boa e polida linguagem, sim?).

Pois então. Estou sem Internet e tal, aí às vezes fico com vontade, geralmente à tarde, de sentar ao computador e ficar olhando com cara de babão para a tela do google, me perguntando sobre que caminho de boas horas de distração barata ele há de me levar. Digo, isso é quase melhor que conversar com 87,4% das pessoas que estão aí na rua (“quase”, para não comprometer-me devido a sobrançaria). Mas estava pensando nisso. Dá-se que tenho dormido mais, e isso está reforçando essa fama de que só durmo. Decorre que mesmo dormindo estou a evoluir muito mais do que trocentos desses aí fora. Estando com as pálpebras cerradas, servindo-me de anteparo para o Mundo dos Sonhos, ganho mais experiência de vida que muitos dessa laia que a maior parte do tempo só fazem emburrescer-se ainda mais. Durmo. Durmo porque na maior parte do tempo isso é mais proveitoso que freqüentar as aulas da faculdade. E ai que meus pais não escutem isso, que é para continuarem mandando as verbas que mantém seu Eugène nos estudos, formando-se um doutor.

Minha nova morada, que mencionei anteriormente, é legal, têm gentes legais, apesar de alguns deles terem nascido gaúchos, coitados, mas tenho-os tratado; algumas vezes têm cura. O duro é quando passam aí dos 23, 24, porque nessa fase a coisa envereda por tornar-se irremediável. Depois dos 40 o espírito entra mesmo a inflar-se, saturando os valores mais impudicos. Caso o tipo não tenha passado por determinados aprendizados, como a improbabilidade da vida humana sem o humor, sem o levar a sério, então há grande chance de que, ao passar dos 40, converta-se em alguém bastante incômodo. Coisa que, em casa do autor, tem constituído o atual entrave com seu progenitor.

Tenho divagado, devágádo, devagádoto, devagá-dotô. Divagado, digo-os, sem rédeas. Percebam que boa parte dos meus duzentos e tantos eus teria trucidado o eu poeteiro por um poema concretista, ainda mais no meio de um texto sério e limpinho, mas estão todos eles desatrelados, de modo que também correm soltos. Ai, preciso de ar. Então, estou com vários projetos. Sinto que principio a tomar fôlego para o livro que posso dar à luz em breve. Tenho planos de ir aos Estados Unidos next summer, para servir de mão-de-obra escrava, oh. Tenho planos para abalar as bases lá da faculdade em que estudo. E uns outros tantos que virão à tona no seu devido tempo. Mas agora chega, vou ler um pouco mais, enquanto gotas de chuva se estatelam no chão lá em baixo produzindo um estampido insosso que prenuncia mais uma de suas encarnações é chegada ao fim.

 

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* com efeito, o primeiro texto publicado numa lãrrause. beijo.

#4

September 19, 2007

Quem anda seus males encontra.

qualquer coisa

September 15, 2007

Ficou bastante claro para mim, e isto enquanto brincava com minha irmãzinha de quase dois anos, que nada importaria que lhe dissesse qualquer coisa sobre a vida. Isso de nada iria adiantar mesmo que com ela me sentasse diariamente movido por este objetivo. Nas oportunidades que tenho de estar em casa da família brinco bastante com minha irmã, a observar divertido os nossos momentos que serão daqui a pouco apenas lembranças. Me flagro enlevado pela nostalgia mesmo no passar do intangível presente, acometido pelos sentimentos que no futuro me causarão a lembrança destas horas. É algo triste, não há duvida, mas é a forma com que o cético se mune para enfrentar melhor os dias.

Tornou-se evidente que, enquanto me acomodava ao assento do balanço, intrigado com a rebelião surda da Senhora Emma Bovary, minha irmã, correndo lá e cá pelo gramado, aprendia a lidar com a vida em suas relações mais íntimas e puras. Foi quando me mostrou dizendo “icho, icho” uma formiguinha que passava por ali, perscrutadora e ligeira, e logo se abaixou dando o dedinho da mão para que o inseto subisse ou algo assim. Pensei em adverti-la que essas formiguinhas às vezes são hostis e às vezes picam coisas que se mexam por pura precaução – apesar de me picarem mesmo quando estou em absoluta imobilidade, as malditas. Ia dizer que tomasse cuidado, porque não gostaria de vê-la ferida e magoada sendo que um seu sorriso me cai bastante melhor.

Deixei no entanto que ela aprendesse por si e não interferi em seus dedinhos que permaneciam tentando agarrar o icho, que a prática talvez lhe valesse mais. Ocorre que as experiências todas podem fazer sentido apenas se devidamente vividas, pois as coisas que aprendemos de outrem têm mais chances de se perder no ar. É por isso que as falas todas daquele filme especial que fizeram um sentido estúpido e sublime são aos poucos esquecidas, enquanto a vivência de um diálogo sequer, deixa sua marca para todo o sempre. O vocábulo dito não tem sentido para a alma, do que se depreende que não nos comunicamos intimamente. Se sinto nojo e te digo isto, saberás o que é nojo e saberás que estou enojado, mas não saberás o que é estar enojado naquele momento a menos que também o estejas.

É exatamente isto que nos toca nas pessoas: a ciência de que em algum momento de suas vidas elas compartilharam das mesmas experiências que nós. Se digo a alguém que Gabriel García Márquez é muito bom, e tenho de explicar por que é bom, isso difere de outra que responda fazendo uma ponderação mesmo que leviana sobre os Buendía. Porque uma história como a dos Buendía, mesmo que faça sentido de maneiras várias para pessoas variadas, é daquelas que nos deixam na alma pequenas marcas invisíveis; marcas que, quando aguçadas, dão conta de que o outro compartilha alguma parte especial deste mundo conosco, e para esse sentimento as palavras são vãs. E embora a Literatura seja sagrada a ponto de muitas vezes levar-nos a experiências que de outra maneira não viveríamos, no que reside um de seus valores, não corresponde sozinha a sorte de momentos que nos podem cunhar seus vincos. Essas coisas se dão num nível bastante sutil que no mais das vezes nos passa mesmo despercebido.

A graça de viver me ocorreu justamente como a possibilidade de encontrar pessoas que se tenham deparado de maneiras semelhantes à certas circunstâncias da realidade. Que entendam os planos, entendam as músicas, o jeito de falar olhando para o copo de vinho; que compartilhem da poesia, do jeito de ser distraído, das falhas mais doces; que compreendam o jeito arrogante e o deleite com a vida apesar da vida. E me ocorreu que talvez seja por isso que tanto gosto de escrever e escrever. Porque sendo as palavras vazias, ainda assim me parecem a maneira mais eficiente de se criar laços verdadeiros e uma das tentativas mais heróicas de se transgredir o círculo da individualidade.

<:o)

September 6, 2007

Hoje é um bom dia, como as probabilidades todas costumam apontar que não seja possível. Tem sol, tem gente bonita, tem Chesterton, tem um feriado logo ali e tem festa logo mais a noite. Esses detalhes, todavia, apresentam-se triviais, não dão conta do sentimento que supostamente representam. Ocorre que em dias assim a expressão das palavras torna-se comprometida. Não são os dias em que se convém escrever, e talvez isto valha para muitos dias daqui a frente. Falta o rigor da tristeza que, felizmente, tem a condição de ser perene. Hoje também há de ser o dia em que finalizo a mudança, outra mudança, não tendo sido a anterior empreendida com sucesso. Ficarei, como se sabe, sem acesso a Internet, o que, quem sabe, pode ser uma boa coisa. Mas diminua-se o volume do burburinho: continuarei a(l)tivo a escrever-lhes estas milongas ataviadas.

 

vida dura

September 5, 2007

Muito chato: passei a tarde a dar duro nas areias da Praia Mole. (Já era mesmo hora do astro-rei vim dar novamente pelos rincões da ilha).

sweet jane

September 5, 2007

Apresentou-me à (minha nova) marica
um homem de cabelo assim
dizendo sorridente, que lindo:
é necessário ter com a marica, amigo
para que o beiço não vire marfim.