não, eu é que me demito

September 2, 2007

Ultimamente tenho a impressão de que analiso a vida do alto de uma envergadura moral de uns 40 anos de experiência, com as entradas da calvície fazendo já suas vezes. E o mais estranho é que carrego isso no mesmo espaço físico que carrego uns gostos típicos da juventude, gostos que me fariam sentir alguma vergonha se eu lá me importasse com esse mundo aí. Mas me divirto com essa impressão de mundo, de 40 anos e tal, como se já pudesse dar opinião satisfatória sobre a esmagadora maioria dos autores da Alta Literatura, hmm, esmagadora não, mas vá lá, grande parte. Por exemplo, me divirto com a experiência de um adulto de 40 anos, que sabe exatamente do que gosta, como gosta e por que gosta. Estou aqui a me comunicar com pessoas um tanto bobo ainda com essa tecnologia, e gosto das formalidades gentis e tudo mais. Perco tempo vez ou outra trocando mensagens de e-mail com uns (ia dizer camaradas, mas quero estar em paz com as direitas) amigos, sendo fiel aos antepassados que trocavam pequenos e afáveis bilhetinhos entregues por seus servos. Fico deslumbrado com as possibilidades de se escutar música boa e distante do que se ouve nas ruas do condado. Vejo-me como um homem de alguma senilidade já, mas lúcido, incrivelmente lúcido e sensível.

Até outro dia deu que abrimos uma agência de fotojornalismo ou coisa que o valha lá no curso. E estava tudo ok, muito bonito, D200 na cabeça e uma idéia na mão, essas coisas, mas chegou o dia em que me pediram que fizesse o site da agência por ser o mais bem preparado dentre os disponíveis, o cara que cursou Design, o que dá conta etc. Fiz; ficou um sitezão estiloso, coisa bonita, conceitualmente inovador e engenharia idem. Porém, programei o rosto do bicho apenas, porque não agüento isso de programação. Não tenho mais a paciência de um jovem de 20 anos para ficar a frente do computador escrevendo essas linguagens que não me são natas. Então as gentes lá da agência ficam reclamando, que “hei, Dael, quando vai fazer o site funcionar hehe?” “tua importância pra gente é esse maldito site, mas a gente te ama, verdade” “Dael, ó o deadline, meu! O deadline, pô!”, e não entendem que atingi o meu máximo; dei-lhes os tecidos já devidamente trabalhados para que fizessem suas próprias costuras.

E fiquei pensando que se estou numa agência de fotojornalismo para ficar escrevendo códigos de programação, é melhor que nem esteja. Então, acabo de decidir, amanhã mesmo me demito. “Sem choro, mulher, por favor; we always have Rio de Janeiro (capriche na pronúncia ameuricana ao ler Rio de Janeiro)”. Eu digo “gente, será uma nova fase da minha vida, fotografarei as imagens que meu coração mandar”. Já se pode antever toda a teatralidade da cena a desenrolar-se como um soneto, “Dael, fica! Fica, Dael!” Mas tá, parei.

 

7 Responses to “não, eu é que me demito”

  1. Lali Says:

    hehehe esssa parte do “fica dael” foi engraçadinha =p

    bjo deco
    =)

  2. Dael Says:

    Hmm, tá.

  3. Dael Says:

    Amanhã, eu disse amanhã.

  4. Donato Says:

    Boa sorte!

  5. ulisses Says:

    Mostra o site aí, bonitão.


  6. Fez mui bem em evitar o “camaradas”

    =]


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