qualquer coisa

September 15, 2007

Ficou bastante claro para mim, e isto enquanto brincava com minha irmãzinha de quase dois anos, que nada importaria que lhe dissesse qualquer coisa sobre a vida. Isso de nada iria adiantar mesmo que com ela me sentasse diariamente movido por este objetivo. Nas oportunidades que tenho de estar em casa da família brinco bastante com minha irmã, a observar divertido os nossos momentos que serão daqui a pouco apenas lembranças. Me flagro enlevado pela nostalgia mesmo no passar do intangível presente, acometido pelos sentimentos que no futuro me causarão a lembrança destas horas. É algo triste, não há duvida, mas é a forma com que o cético se mune para enfrentar melhor os dias.

Tornou-se evidente que, enquanto me acomodava ao assento do balanço, intrigado com a rebelião surda da Senhora Emma Bovary, minha irmã, correndo lá e cá pelo gramado, aprendia a lidar com a vida em suas relações mais íntimas e puras. Foi quando me mostrou dizendo “icho, icho” uma formiguinha que passava por ali, perscrutadora e ligeira, e logo se abaixou dando o dedinho da mão para que o inseto subisse ou algo assim. Pensei em adverti-la que essas formiguinhas às vezes são hostis e às vezes picam coisas que se mexam por pura precaução – apesar de me picarem mesmo quando estou em absoluta imobilidade, as malditas. Ia dizer que tomasse cuidado, porque não gostaria de vê-la ferida e magoada sendo que um seu sorriso me cai bastante melhor.

Deixei no entanto que ela aprendesse por si e não interferi em seus dedinhos que permaneciam tentando agarrar o icho, que a prática talvez lhe valesse mais. Ocorre que as experiências todas podem fazer sentido apenas se devidamente vividas, pois as coisas que aprendemos de outrem têm mais chances de se perder no ar. É por isso que as falas todas daquele filme especial que fizeram um sentido estúpido e sublime são aos poucos esquecidas, enquanto a vivência de um diálogo sequer, deixa sua marca para todo o sempre. O vocábulo dito não tem sentido para a alma, do que se depreende que não nos comunicamos intimamente. Se sinto nojo e te digo isto, saberás o que é nojo e saberás que estou enojado, mas não saberás o que é estar enojado naquele momento a menos que também o estejas.

É exatamente isto que nos toca nas pessoas: a ciência de que em algum momento de suas vidas elas compartilharam das mesmas experiências que nós. Se digo a alguém que Gabriel García Márquez é muito bom, e tenho de explicar por que é bom, isso difere de outra que responda fazendo uma ponderação mesmo que leviana sobre os Buendía. Porque uma história como a dos Buendía, mesmo que faça sentido de maneiras várias para pessoas variadas, é daquelas que nos deixam na alma pequenas marcas invisíveis; marcas que, quando aguçadas, dão conta de que o outro compartilha alguma parte especial deste mundo conosco, e para esse sentimento as palavras são vãs. E embora a Literatura seja sagrada a ponto de muitas vezes levar-nos a experiências que de outra maneira não viveríamos, no que reside um de seus valores, não corresponde sozinha a sorte de momentos que nos podem cunhar seus vincos. Essas coisas se dão num nível bastante sutil que no mais das vezes nos passa mesmo despercebido.

A graça de viver me ocorreu justamente como a possibilidade de encontrar pessoas que se tenham deparado de maneiras semelhantes à certas circunstâncias da realidade. Que entendam os planos, entendam as músicas, o jeito de falar olhando para o copo de vinho; que compartilhem da poesia, do jeito de ser distraído, das falhas mais doces; que compreendam o jeito arrogante e o deleite com a vida apesar da vida. E me ocorreu que talvez seja por isso que tanto gosto de escrever e escrever. Porque sendo as palavras vazias, ainda assim me parecem a maneira mais eficiente de se criar laços verdadeiros e uma das tentativas mais heróicas de se transgredir o círculo da individualidade.

2 Responses to “qualquer coisa”

  1. Lali Says:

    Olá meu grande amigo!

    Mais uma vez amei seus escritos e achei muito interessante a história da Maria e a formiga…trazendo pra nossa vida, podemos tirar uma grande lição. Às vezes queremos proteger pessoas que amamos esquecendo que elas precisam, às vezes, aprender sozinhas, errar sozinhas e consertar os erros sozinhas, para que no futuro sejam pessoas independentes, maduras, capazes de decidirem seus próprios caminhos.

    Beijos da Lali.

    Obs:a Maria é muito amada! Posso até imaginar a cena dela com o “icho” hihihi.


  2. Muito bom o post, Dael. Você fez falta por esses dias.

    Bom dia.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: