os olhos nunca mentem

October 30, 2007

porque, bem, os olhos não dizem nada.

just

October 26, 2007

Parece que as questões mais árduas, de resolução mais incômoda (as ambigüidades do trato, as linhas finas que separam duas campanas muito bem instaladas na floresta das tradições etc.) chegam às mãos mais bem preparadas involuntariamente, por ação do destino ou algo assim, mas, na verdade, se lhes aparecem somente porque são essas mãos, ou essas mentes, que as podem enxergar de maneira mais complexa (o que traz sofrimento e leva embora a paz, mas essa não é a questão aqui). A inteligência permite enxergar os fatos como pequenos nós de uma rede maior, e enxergar os seus detalhes se reproduzindo por meio de sinapses surdas, sutis, numa rede bastante mais profunda que infelizes direitas e esquerdas, de maneira que quanto maior o alcance da visão, mais para perto do inferno se pode olhar. São detalhes tais que às vezes não podem ser interpretados por olhos humanos quanto menos descritos por suas bocas – tendo encontrado cruel fim os que tentaram narrá-los. Contudo, estão aí. E então há todas as situações que se nos interpõem diariamente, e talvez tudo fosse mais fácil se pudéssemos fazer algo de realmente bom com elas, à imagem do que já fizeram grandes homens, porque do contrário seremos sempre reprodutores dos mesmos estúpidos erros, e seremos eternos protagonistas dessa rede de clichês que é a vida. Alguns chamam a isso de karma, outros acreditam que as reencarnações são cíclicas buscas atrás da auto-iluminação, mas não vêem que as reencarnações se dão no decorrer da própria vida, não sendo necessário recorrer a alardes fantasiosos para reconhecer isso. A situação talvez se amenizasse e todos pudessem sair da fossa se soubéssemos o mínimo que fosse da arte de viver uma vida sequer. Ninguém sabe coisa alguma; muito se fala, pouco se escuta, e menos ainda é o que se entende. Somos animaizinhos assustados, esticando nossos braços caducos para cutucar um ao outro com uma varinha e escondendo-os logo em seguida atrás dos cobertores que usamos para encobrir nossas verdadeiras carcaças, as quais de tanto se esconderem já atrofiaram e tomaram uma violenta palidez, enrijecida e sulcada em torno de ossos antigos e destruídos pela coca-cola.

o melhor post desta casa:

October 12, 2007

calvin-hobbes

In Rainbows

October 11, 2007

A essa altura já devem ter resenhado, excruciado e vangloriado, mas eu só queria dizer que estive a escutar o novo disco do Radiohead e uma casquinha de gesso que começava a envolver meu pequeno coração foi trincando devagar e acabou por rachar completamente diante de sua vontade súbita de fazer tum-tum, façanha essa alcançada umas duas ou três vezes hoje pela manhã.

[ou “como parei de temer e aprendi a amar o medo”]

Tem essa onda e eu queria saber se posso ir rápido demais e acabar caindo ou ir devagar demais e acabar deixando passá-la. Olhando daqui parece que está encaixotando, o que é muito tentador, mas sempre deixa evidente o risco de se tomar um caldo arriscado para as costelas. Ora também parece um desastre, um trem desgovernado e irregular, se quebrando em partes, o que desanima um pouco, mas faz a vista já levantar em busca de mais uma bateria, porque a lida tem que seguir. Estive pensando: o meio-metrinho de ontem estava ok, e hoje dá que o metro e meio na dorsal estão minando a coragem do velho. A gente fica olhando lá das pedras e se sente formalmente convidado, cai com vontade, e depois de entrar nesse negócio mexido umas duas ou três vezes, o ânimo parece que se vai junto com as forças. Ô Mar, ô Iemanjá, faz a coisa ajeitar um pouquinho, faz. Se não, nego fica aqui não sabendo se sai ou entra porque está com o pé lá atrás com essas baita. Se leva uma dessas no cerro, o velho não agüenta. (Cansei da metáfora, preciso de ar).  (Tá bom, já recuperei). (Sim, pois sou bala na agulha). (Chega). (Ok). Teve até esse outro dia e eu pensei se podia ficar atrás da arrebentação e levar um cabernet qualquer, barato que fosse, só pra poder olhar a Lua em situação tão especial, na companhia de toda essa beleza, inteligência, obscurantismo e mistério, que é a Natureza-Mãe; Mãe do Mar, Mãe da Lua, Mãe da gente; seria só por alguns minutos. Só que aí bateu a consciência pra dizer que não se deve fazer essas coisas assim tão depressa, às vezes Iemanjá assusta e vai-se embora pra nunca mais. Mas sei lá, entendo cada vez menos os desígnios do Todo-Poderoso, a Natureza às vezes pode ser perversa, mesmo sem saber. Homem de bem se dá mal por obra do acaso. O Vento às vezes sopra pro lado errado. Acontece. Enquanto não, fica a eterna espera pela onda perfeita, aquela que dá arrepios na espinha só de imaginar, aquela que uma vez surfada com vontade vai deixar um sorriso bobo no rosto pelo resto da vida, aquele tubo que faz ver em sua escuridão a face de D-us (aqui, como uns judeus mais doidos por aí, evito escrever o nome de Deus em vão). (Oops, D-us). Fica a certeza algo inabalável de que amanhã, ou depois, ou depois, ainda há de rolar a onda perfeita. Não tem problema, eu espero. Terei 40 anos e se for preciso, continuarei esperando. A onda perfeita um dia há de vir e quando vier servirá mesmo para libertar a alma desse suplício eterno que é a vida, soltar o espírito dizendo assim: “vai-te liberto homem, já podes morrer feliz”. E aí a unção já se concretizou, aí as coisas começam a fazer algum sentido, e a velhice poderá então conservar um sorriso durante a profilática e gradual perda dos sentidos, durante o esquecimento de todas as coisas. O homem poderá ir-se em paz, em glória, para os banquetes conspícuos da não-existência; saudável e pacífico, tudo vai se apagando, todos os detalhes, todos os dramas, todos os sofrimentos; ao homem que teve a chance de surfar a onda perfeita, tudo se prepara como que ritualmente para o derradeiro; o esquecimento eterno que é a morte.

pfui

October 9, 2007

Ficar sem Internet em casa é o ó da picada.