Conversem vocês, seus dois cúmplices

October 9, 2007

[ou “como parei de temer e aprendi a amar o medo”]

Tem essa onda e eu queria saber se posso ir rápido demais e acabar caindo ou ir devagar demais e acabar deixando passá-la. Olhando daqui parece que está encaixotando, o que é muito tentador, mas sempre deixa evidente o risco de se tomar um caldo arriscado para as costelas. Ora também parece um desastre, um trem desgovernado e irregular, se quebrando em partes, o que desanima um pouco, mas faz a vista já levantar em busca de mais uma bateria, porque a lida tem que seguir. Estive pensando: o meio-metrinho de ontem estava ok, e hoje dá que o metro e meio na dorsal estão minando a coragem do velho. A gente fica olhando lá das pedras e se sente formalmente convidado, cai com vontade, e depois de entrar nesse negócio mexido umas duas ou três vezes, o ânimo parece que se vai junto com as forças. Ô Mar, ô Iemanjá, faz a coisa ajeitar um pouquinho, faz. Se não, nego fica aqui não sabendo se sai ou entra porque está com o pé lá atrás com essas baita. Se leva uma dessas no cerro, o velho não agüenta. (Cansei da metáfora, preciso de ar).  (Tá bom, já recuperei). (Sim, pois sou bala na agulha). (Chega). (Ok). Teve até esse outro dia e eu pensei se podia ficar atrás da arrebentação e levar um cabernet qualquer, barato que fosse, só pra poder olhar a Lua em situação tão especial, na companhia de toda essa beleza, inteligência, obscurantismo e mistério, que é a Natureza-Mãe; Mãe do Mar, Mãe da Lua, Mãe da gente; seria só por alguns minutos. Só que aí bateu a consciência pra dizer que não se deve fazer essas coisas assim tão depressa, às vezes Iemanjá assusta e vai-se embora pra nunca mais. Mas sei lá, entendo cada vez menos os desígnios do Todo-Poderoso, a Natureza às vezes pode ser perversa, mesmo sem saber. Homem de bem se dá mal por obra do acaso. O Vento às vezes sopra pro lado errado. Acontece. Enquanto não, fica a eterna espera pela onda perfeita, aquela que dá arrepios na espinha só de imaginar, aquela que uma vez surfada com vontade vai deixar um sorriso bobo no rosto pelo resto da vida, aquele tubo que faz ver em sua escuridão a face de D-us (aqui, como uns judeus mais doidos por aí, evito escrever o nome de Deus em vão). (Oops, D-us). Fica a certeza algo inabalável de que amanhã, ou depois, ou depois, ainda há de rolar a onda perfeita. Não tem problema, eu espero. Terei 40 anos e se for preciso, continuarei esperando. A onda perfeita um dia há de vir e quando vier servirá mesmo para libertar a alma desse suplício eterno que é a vida, soltar o espírito dizendo assim: “vai-te liberto homem, já podes morrer feliz”. E aí a unção já se concretizou, aí as coisas começam a fazer algum sentido, e a velhice poderá então conservar um sorriso durante a profilática e gradual perda dos sentidos, durante o esquecimento de todas as coisas. O homem poderá ir-se em paz, em glória, para os banquetes conspícuos da não-existência; saudável e pacífico, tudo vai se apagando, todos os detalhes, todos os dramas, todos os sofrimentos; ao homem que teve a chance de surfar a onda perfeita, tudo se prepara como que ritualmente para o derradeiro; o esquecimento eterno que é a morte.

One Response to “Conversem vocês, seus dois cúmplices”

  1. Gustavo Says:

    Abstrai as fraturas, são efeito do imaginário e deixam de existir se você cái sem pensar nelas😉


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