just

October 26, 2007

Parece que as questões mais árduas, de resolução mais incômoda (as ambigüidades do trato, as linhas finas que separam duas campanas muito bem instaladas na floresta das tradições etc.) chegam às mãos mais bem preparadas involuntariamente, por ação do destino ou algo assim, mas, na verdade, se lhes aparecem somente porque são essas mãos, ou essas mentes, que as podem enxergar de maneira mais complexa (o que traz sofrimento e leva embora a paz, mas essa não é a questão aqui). A inteligência permite enxergar os fatos como pequenos nós de uma rede maior, e enxergar os seus detalhes se reproduzindo por meio de sinapses surdas, sutis, numa rede bastante mais profunda que infelizes direitas e esquerdas, de maneira que quanto maior o alcance da visão, mais para perto do inferno se pode olhar. São detalhes tais que às vezes não podem ser interpretados por olhos humanos quanto menos descritos por suas bocas – tendo encontrado cruel fim os que tentaram narrá-los. Contudo, estão aí. E então há todas as situações que se nos interpõem diariamente, e talvez tudo fosse mais fácil se pudéssemos fazer algo de realmente bom com elas, à imagem do que já fizeram grandes homens, porque do contrário seremos sempre reprodutores dos mesmos estúpidos erros, e seremos eternos protagonistas dessa rede de clichês que é a vida. Alguns chamam a isso de karma, outros acreditam que as reencarnações são cíclicas buscas atrás da auto-iluminação, mas não vêem que as reencarnações se dão no decorrer da própria vida, não sendo necessário recorrer a alardes fantasiosos para reconhecer isso. A situação talvez se amenizasse e todos pudessem sair da fossa se soubéssemos o mínimo que fosse da arte de viver uma vida sequer. Ninguém sabe coisa alguma; muito se fala, pouco se escuta, e menos ainda é o que se entende. Somos animaizinhos assustados, esticando nossos braços caducos para cutucar um ao outro com uma varinha e escondendo-os logo em seguida atrás dos cobertores que usamos para encobrir nossas verdadeiras carcaças, as quais de tanto se esconderem já atrofiaram e tomaram uma violenta palidez, enrijecida e sulcada em torno de ossos antigos e destruídos pela coca-cola.

4 Responses to “just”

  1. Dael Says:

    Ah, oi.

  2. Fabiane Says:

    “A verdade é como um cobertor… que sempre deixa seus pés com frio. Você empurra, estica, nunca há suficiente. Você chuta, bate, nunca mais nos cobrirá. Desde que chegamos chorando até partirmos mortos. Só cobrirá seu rosto enquanto você berra, chora e grita”.

    Não sei bem por que, mas lembrei desse trecho de “Sociedade dos poetas mortos” quando li o post…

    beijo!

  3. Dael Says:

    Inclusive bastante melhor que o post, Sra. Fabiane.😉


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