Há muito que ser dito, mas ah, lembremos só por um minuto que palavras são só palavras. Meu pai está no trabalho, não veio despedir-se pelo receio da despedida, pelo que a própria Luz absolve-o. E minha mãe estava aqui há pouco, agarrando seu Eugène. Lá fora, chuva; mas não qualquer chuva. É chuva que só chove pra dizer que está lá, que gera uma imagem um pouco distorcida da paisagem, como um chiaço na tevê, só que, em lugar de chios, estalinhos no chão. Nesse momento não sei bem o que pensar because our life is not a movie or maybe. Vejam que outro dia sonhei com ela, e foi um sonho lindo; e estou em silêncio de paixões mas ao acordar tive imensa necessidade de fazer algum barulho, tipo vejam só, chance perdida. E nada vai voltar porque nada nunca volta – oh que dúbio, Danúbio.

Poderia alguma vez acontecer em gritos surdos como com Bob e Charlotte, dos quais os sentimentos se não perderam na tradução? Poderia estar andando despropositado no meio de uma Tóquio de seis bilhões de pessoas e encontrá-la para dá-la o último adeus? O último adeus é privilégio tamanho que apenas poucos encerraram algum momento da História dispondo-se dele. Mas todos viram espectros iluminados no momento em que isso acontece, e então já tudo deixa de existir.

Queria apenas deixar um sorriso aqui estampado a me lembrar que tenho braços para os quais voltar.

…
Uma Maria Melada

“I am a deeply superficial person.”
AndyWarhol

 

Metade das músicas do mundo é sobre amor porque esse é o tema mais cinicamente tratado pelo gênero humano. O mais indefinível dos sentimentos é também o mais incômodo quando colocado à luz da realidade – outra balela que preferimos deixar quietinha para evitar conclaves. Existem duas classes de seres humanos – os que vão fundo nas questões da percepção, só ou socialmente, e os que deixam o caminho pra depois. A segunda categoria envolve-se em mais preconceitos, não por falta de caráter, antes por ignorar a composição dos conceitos. A primeira apresenta várias ramificações, mas cabe dizer que está mais longe de escutar pagode. Não vou dizer que o pagode é ruim, só não apetece aos martelos do ouvido. A primeira classe tem o problema de que às vezes se esquece de por que não ouve pagode. Há duas opções extremas de algum interesse: a) são todos da primeira classe que se ressentem pela qualidade do som, b) ressente-se, em lugar dos martelos, a construção da imagem ante outrem. Os da segunda classe geralmente não se incomodam de ouvir pagode posto que apenas ouçam. São seres práticos, agem, e poder-se-ia dizer que fazem o mundo girar apenas movimentando as perninhas em sua superfície.

Uma velhinha entrou no ônibus em que eu repousava antes da viagem; abriram a porta e tão logo localizei a poltrona, pus-me a cochilar, cansado estava. O chapéu devidamente posicionado sobre as pestanas fez-me pensar que desistiriam depois da primeira sacudida que deram no meu braço dizendo Moço, ô moço, mas não, insistiram mais, sacudiram mais. Abri os olhos, vi a velhinha, olhos grandes e amarelos, me estendendo a mão Aceita um cartãozinho com a palavra de Deus, moço? Não. Educado, mas não. Fez-se o silêncio, porque o segundo grupo domina o mundo. A separação, há que se estar atento, não é diametral, não é questão de um pensa outro não pensa. Funciona assim: um pensa sobre as questões, outro pensa pelas questões. Assim, não duvido que alguém quisesse me bater naquela hora e colocar reajustada a justiça do ambiente.

As duas classes estão largamente amalgamadas uma à outra, porque a natureza tem dessas de ficar se misturando. Elas existem apenas in loco, ou seja, não existem, homenzinho. Fossem uma e outra, no entanto, e estariam ambas condenadas. Quando uma missa acontece/ ou quando vai acontecer/ você sabe que uma prece não vai te dizer/ que o diabo agradece por você.

peça tudo que quiser

November 23, 2007

Quer-me parecer estranho que eu não possa negar o que sou, dado o que sou, e isso pode permanecer assim, dirão alguns; há de sempre estar assim, dirão, com a sua certeza, outros; estando eu sob a bandeira desses últimos. Atravesso uma fase em que não posso contrariar meus olhos quando tudo que eles vêem nas pessoas são moléculas melindrosas fingindo que existe uma entidade chamada Vida da qual são adoráveis proprietárias e não usam-na senão para criar seus cansativos mini-conflitos. Já me foi dado saber que é só mais uma visão, mas deposito os níqueis em que das pessimistas essa está bem à extrema. Lógico, vocês não têm nada a ver com isso (toma um pirulito!), mas é em função disso que se vai embora meu ânimo para escrever, cousa que me vem em períodos definidos da existência.

À custa de algum esforço, eu poderia lançar mão de um texto bem lindo, daqueles que sempre faziam os colegas virem me cumprimentar pelos corredores e as menininhas chegarem mais perto, assustadas ainda, para entabular singelos cortejos. A época, entretanto, é de relaxamento, de descansar a alma e dormir até tarde. Estende-se à frente (parto em três dias) uma viagem de verão à américa, como se diz. Talvez eu até escreva uns posts em inglês de lá, mas é bem provável que não, então não esperem. Mas dizia, apesar dessa preguiça toda, o mal da geração, e do esforço que absorve a atividade, hoje é um dia particularmente agradável e eu quis dar de mim um tostão para este novo blogue que já vai indo.

Converso aqui com vários amigos pelo msn e é sobre essas conversas que divagava há pouco, e agora também, um pouquinho só, porque cansou-me. Há um amigo lá da faculdade que virou gay (e eu tenho certeza que ele nunca vai ler isso aqui, então poderia até chamá-lo de bobo se quisesse mas não farei isso, óbvio, porque sou muito direito) e estava a me contar de uns códigos que se tem tanto cá na Ilha quanto em qualquer outro lugar e eu fiquei bastante grato por ser hetero, se não por gosto – claro que por gosto –, pela dificuldade que seria aprender uma legislação nova para os relacionamentos. Por ordem de aparição, há, em segundo, o senhor deste blogue, que abriu-o apenas pela iminência que o fato concede à premiação a lhe ser entregue por isso. Falávamos da minha irmã – e lá vai uma foto dela pra deixar o blogue bonito:

hermana
toma esse sorriso, coração gelado

Falo ainda com uma senhora que, segundo declara, trato-a mal. Mas vocês sabem que sou tão mal quanto uma vaquinha pacientemente confinada no estábulo; e sobre isso não há mais que ser dito. Last but not least, converso com este companheiro remanescente da antiga escola, com quem revivo nostálgica e alegremente um fotolog que mantínhamos antigamente e que estava aí sedimentado entre as eras da Internet. Vendo a nossa diversão pequena, a nossa implicância inexplicada – e, por isso, mais sensata – contra quem quer que quiséssemos implicar. E toda essa coisa feita de uma maneira ingênua, divertida e espontânea. Até quase fiquei com vontade de soltar aquele chavão do Eu era fel…, mas estou aqui firme, ó, presta atenção.

enquete

November 17, 2007

É bom ou ruim que um lindo par de peitos geralmente traga atrás de si um ser levemente estúpido?

acadiano

November 17, 2007

Eu fico escutando Cat Power e pensando Pros diabos!, essa mulher nasceu foi pra isso mesmo! E é isso que as pessoas procuram e apenas em raros momentos encontram: como diria um mestre de auto-ajuda: descobrir para (o) que nasceram. Hoje meu tio estava aqui em casa, peguei o carro dele, que tenho desses prazeres bobos como dirigir anonimamente pela cidade, observando o desenrolar da vida no comando de alguns cavalos treinados. Ele trabalha com isso, o meu tio, com dirigir pelas cidades acompanhando o fluxo de pessoas para cá e para lá.

Houve certa vez que, em morando com meus pais, queria arranjar logo algum trabalho pra fazer e me ver livre das asas parentais, aqueles ímpetos de garotinho amansado para pensar como um bom trabalhador, e conversando com um outro tio sobre isso de arranjar emprego, ofereceu-me ele algo como dirigir por aí, levando pessoas cá e lá a bordo de uma máquina arretada. Meus pais fizeram birra, e a idéia evaporou no ar.

Só que há sempre a chance de que encontremos o quê de nossas vidas em coisas para as quais as pessoas façam birra. Que o quê!, dizem. Mas é de se pensar o quanto pode ser interessante trabalhar com um grande carro que aos poucos vai-se tornando íntimo do condutor, em ignorar solenemente todas as pessoas diferentes cheias de suas histórias para contar e seus ensinamentos para ensinar que puserem as bundas no assento do passageiro. E conhecer garotas para as quais ouvi-las já é o suficiente. E ganhar quilômetros ouvindo Roger Waters, ouvindo Joanna Newson, ouvindo Devendra Banhart. Ouvindo Hurtmold.

olá, ó lá

November 14, 2007

Aos que já tiveram a felicidade de me conhecer, deixo aqui formais cumprimentos, só pra simularmos que existem correntes e seitas entre os blogueiros e possam assim criar-se o tanto de boatos que dão sentido à vida. Aos que permanecem nas trevas, antecipo que não me vou apresentar. Mas serei generoso explicando: de mim, bastam-lhes as palavras.

Outro dia até, estava numa rodinha na ufsc conversando sobre sei-lá-quê e quando me perguntaram a opinião sobre uma certa coisa respondi que Eu estudo pra não precisar subir tijolo na vida, aí esse tipo de estudante que fico tentado a chamar esquerdinha burguesa de pensamento levemente acanhado mas não chamo porque não vale que se opine sobre isso já parte logo pra cima fazendo coro de Uuuuu! Que isso! e começam a apontar pra você – na referida situação, pra mim – dizendo Isso é muito feio! Porque eu não me importaria em empilhar tijolo pra viver! Tás atirando a moral dos pedreiros aonde? Pedreiro não tem dignidade?, e você tem que ouvir isso caladinho que é o preço que paga por estar desatento às palavras que usa perto de certas hipocrisias ignorantes de si mesmas. E eu nem vou perder tempo explanando o que seja tal hipocrisia, tendo certeza de que já fui demasiado claro para a gente que entende o que quero dizer.

Eis o que importa: se você imaginou estar ilustrado no parágrafo acima, pode, por gentileza, ir falar àquele senhor de terno cinza que deverá lhe encaminhar o caminho da porta da rua? Muito grato, sim?

Olá. (:

egodistonia

November 14, 2007

Um palo que ficou tão seco, tão seco, e era um dia de tempestade elétrica, as tias escondendo os espelhos da casa atrás de lençóis antigos, as criancinhas se empoleirando em cima da cama numa cabana de cobertores e gritando em uníssono esganiço cada vez que lá fora fazia brummm. Aí veio cair um raio bem em cima do palo, que estando seco seco não demorou a alimentar a fagulha que logo se transformou em caprichosa labareda. Aí já era.

O problema todo é que blogueiro que é blogueiro raramene se limita a ter um blogue, quando dois podem se dar bastante melhor com a pesada carga de ego sem que as rodinhas se espatifem pros lados. É até engraçado, essas discussões sobre ego, sobre arrogância, porque muitas palavras que leio por aí vão ao encontro das idéias que rondam as nuvens de conhecimento no meu cérebro, tal, mas nada a ver.

Fato é: deixamos aqui enterradas as cinzas de mais um bloguezinho, para refletir um pouco sobre a morte, o fim estúpido e inevitável, e não esqueçamos jamais que é para lá que todos nos dirigimos e que portanto toda coisa é apenas vaidade. A impressão que nos fica quando somos lembrados de que Ela existe por alguma ocorrência que nos venha a soltar com dedinhos infantis a fita do chapéu.

Quando você aprende a fazer os laços no cadarço, raramente, se puder evitar, vai pedir para que alguém os amarre para você. Você passa a ter sua própria amarração e seu próprio jeito de passar os dedos por cima ou por baixo, ou fazer duas ou uma lingüeta antes de dar o traço final, e você passa a confiar nos seus próprios laços, e achar que são os melhores laços de que você pode necessitar. Mas às vezes eles afrouxam e você se sente inseguro e vai depender da ajuda de alguém mais hábil para que possa confiar nos seus próprios laços de novo; é desse jeito até o fim. Isso tudo pode não fazer sentido pra vocês, mas certamente faz, então é bom terem colhões, senhores.

E sim, esta casa agora são cinzas. Agora moro acolá.

Na messível do podida, atualizem seus blogrolls, e ponham em dia suas assinaturas.