Interna e externamente, eu aprecio o desperdício do tempo. Uma conversa pode acontecer ao longo de vários dias, não tem problema. E a sua cara eu posso ignorar por algum tempo antes que me sirva de novo. O documento, antes que seja transportado ao seu destino, pode repousar alguns dias mais sobre a estante, a espera do pó que lhe confira dignidade. O cedê não precisa ser baixado de um suspiro que essa prática devota pressa à Música, e esta é a única coisa que Ela lhe pede para despojar. O pensamento pode ser concluído ao longo de diferentes caminhadas e não numa conversa em que são defendidas idéias de outros, que, idéias que são, jamais duraram mais do que o momento em que foram imaginadas. Mas você continua achando que vale a pena discutir aquelas coisas malucas de que ouviu.

Para além do fato de que sua memória pifa, a história a que você assistiu é só sua, então pare de correr atrás do hype da semana Lola. Saber uma historinha sobre Lynch não lhe ensina a ver ali ó, atrás dessa impostura – isso você aprende cultivando no tempo. Quando você se mexe aqui, a Ciência diz que algo se mexe junto em algum lugar do Universo, milhares de anos-luz away, assim que o que quer que os conecte é mais rápido que a mais rápida velocidade que vocês conhecem, bocós.

Você vai perceber que algumas pessoas passam a vida seguindo os passos errados, quando, em verdade, o erro primeiro é seguir passos.

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O tempo sempre passa e o tempo vai passando, e por mais que você sempre ouça isso do cara na tevê e comece a jurar pra si mesmo que não vai dar mais bola para os clichês da vida, eles vão lhe perseguir esteja você onde estiver com a companhia que desejar. De repente você se vê meio mortificado por tudo que está acontecendo, como se estivesse esperando por alguma coisa que vai fazê-lo sentar e escrever um monte de incoerências na tela do seu computador, que, vídeo, foto, música, lhe mostra o tempo que vai passando, cada vez mais corrosivo, cada vez mais voraz, de modo que se você não puxar rápido as rédeas de algumas coisas que deseja manter perto, logo será tarde.

Não há sonho em que refugiar-se porque você se tornou algo destruidor de si mesmo. Foi um erro, você pensa, ter se convertido nessa máquina, nesse monstro em convulsão, porque parece você já não pode divertir-se tão facilmente com as coisas do mundo. Agora a crítica tomou-lhe o espontâneo e todo mundo ao redor parece soar mesquinha e estúpido. Não é que você queira gentes geniais; você está numa porra de uma cadeira de universidade e não faz nada por ser genial, conquanto vá a preguiça fazendo troça da juventude. Você só não queria um mundo de frases prontas, essa desgraça que das gentes é feita. Assim sentem-se bem, pisam campo seguro ao desconsiderarem o arbítrio para além do suspiro. E já não há tempo, porque o barco parte muito em breve, quê há para se preocupar?

O amigo com quem você falava das suas coisas por quantas horas fossem sem que ninguém se desse aborrecido, que morava na rua de cima, e agora vive do outro lado da cidade, agora se preocupa com sua vida de gente com objetivos. O que dá na mesma dizer, na completa falta deles. Já não são as pessoas com quem você fez suas burradas mais incríveis – no sentido mágico que a juventude pode resgatar à semântica.

Agora, você dirige pela cidade sem nem saber onde está indo, porque já não há mesmo tantos lugares para se ir. Você dirige em busca de algumas cervejas e lembra do uísque que tem em casa, sem saber que o gosto pelo que os outros julgam árido é um sinal de que os vincos já começaram, aos poucos, a tomar o sopro que lhe move.

[uma longa pausa aqui]

March 28, 2008

bukowski

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Tenho me entregado ao cansaco sem que isso pareca depender da minha propria vontade. Parece que todo o meu corpo esta a rebelar-se contra o frio da neve e contra o frio do metal que reveste as gentes e contra o frio da saudade.

Por exemplo, voce tem instrumentos que usa para se comunicar, mas as vezes voce nao encontra aquela expressao, a expressao perfeita, porque talvez ela nem exista. Ai voce cria novos simbolos, e nao ha nenhum problema nisso, exceto um: mais instrumentos representam apenas uma entropia maior no ato vago de comunicar-se. E bastante provavel que se voce nao estivesse tentado a fazer-se sempre compreendido, all the unborn chicken voices in your head comecariam finalmente a se tornar compreensiveis ao menos para voce mesmo.
Ninguem faz isso, entretanto, porque todos padecem da ansia por serem recordados. Tentam isso falando uns mais alto que os outros. E quem so quer um lugar sossegado para descansar e ouvir uma musica boa e ler um livro bom, tem todo o cenario desfigurado pelo barulho do sapateado.

A verdadeira revolucao e nao fazer por ser lembrado.

set the controls freak

February 22, 2008

A parte chata da vida mora no entresonhos. Apenas por isso e que acordar pela manha demanda tamanha parte da felicidade que eventualmente possuimos. Nos momentos de maior lucidez o homem e um natural pessimista, sendo portanto dependente de toda a sorte de anestesia como por exemplo uma paixao insana que venha a priva-lo da pasmaceira. Ha, porem, essa mesquinhez humana que voce nao pode mudar nem que tente muito forte, entao e melhor que aprenda rapido um jeito de manter os pes colados ao chao, juntos a poeira.

Mas voce provavelmente ja sabe de tudo isso.

+ + +

Trabalho no mesmo hotel cujo underground habito – o quarto mais bem frequentado da redondeza, lhes posso dizer. Tres refeicoes diarias, alguns embustes para entreter a rotina, piscina escondido na madrugada, boa musica, alcool e nicotina. E o cansaco. E o sufocamento que, dia apos dia, a saudade vai causando no espirito. E o desgaste de viver num pais que consome a si mesmo numa ansia surda, incapaz de perceber os repetidos pen! pen! que, como numa janelinha de erro do windows, as pessoas causam ao esbarrar umas nas outras.

Há muito que ser dito, mas ah, lembremos só por um minuto que palavras são só palavras. Meu pai está no trabalho, não veio despedir-se pelo receio da despedida, pelo que a própria Luz absolve-o. E minha mãe estava aqui há pouco, agarrando seu Eugène. Lá fora, chuva; mas não qualquer chuva. É chuva que só chove pra dizer que está lá, que gera uma imagem um pouco distorcida da paisagem, como um chiaço na tevê, só que, em lugar de chios, estalinhos no chão. Nesse momento não sei bem o que pensar because our life is not a movie or maybe. Vejam que outro dia sonhei com ela, e foi um sonho lindo; e estou em silêncio de paixões mas ao acordar tive imensa necessidade de fazer algum barulho, tipo vejam só, chance perdida. E nada vai voltar porque nada nunca volta – oh que dúbio, Danúbio.

Poderia alguma vez acontecer em gritos surdos como com Bob e Charlotte, dos quais os sentimentos se não perderam na tradução? Poderia estar andando despropositado no meio de uma Tóquio de seis bilhões de pessoas e encontrá-la para dá-la o último adeus? O último adeus é privilégio tamanho que apenas poucos encerraram algum momento da História dispondo-se dele. Mas todos viram espectros iluminados no momento em que isso acontece, e então já tudo deixa de existir.

Queria apenas deixar um sorriso aqui estampado a me lembrar que tenho braços para os quais voltar.

…
Uma Maria Melada