ps

June 12, 2008

up: coincidência não foi porque coincidência não existe, mas observei que este post foi escrito exatamente um ano depois da primeira entrada nesta casa, e isso é lindo.

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Aconteceu que aquilo feito à palo seco acabou à míngua aqui. Depois, veio um vento bater à porta de um certo arpeggi e a coisa recomeçou vulgarmente com isso aqui. Entre tropeços se continuou, e o pródigo tornou enfim à casa, trazendo todos os trapinhos de lá novamente para cá. Nunca se soube, entretanto, o que viria depois. E, ponha-se expresso, não é de bem esperá-lo.

qualquer coisa

September 15, 2007

Ficou bastante claro para mim, e isto enquanto brincava com minha irmãzinha de quase dois anos, que nada importaria que lhe dissesse qualquer coisa sobre a vida. Isso de nada iria adiantar mesmo que com ela me sentasse diariamente movido por este objetivo. Nas oportunidades que tenho de estar em casa da família brinco bastante com minha irmã, a observar divertido os nossos momentos que serão daqui a pouco apenas lembranças. Me flagro enlevado pela nostalgia mesmo no passar do intangível presente, acometido pelos sentimentos que no futuro me causarão a lembrança destas horas. É algo triste, não há duvida, mas é a forma com que o cético se mune para enfrentar melhor os dias.

Tornou-se evidente que, enquanto me acomodava ao assento do balanço, intrigado com a rebelião surda da Senhora Emma Bovary, minha irmã, correndo lá e cá pelo gramado, aprendia a lidar com a vida em suas relações mais íntimas e puras. Foi quando me mostrou dizendo “icho, icho” uma formiguinha que passava por ali, perscrutadora e ligeira, e logo se abaixou dando o dedinho da mão para que o inseto subisse ou algo assim. Pensei em adverti-la que essas formiguinhas às vezes são hostis e às vezes picam coisas que se mexam por pura precaução – apesar de me picarem mesmo quando estou em absoluta imobilidade, as malditas. Ia dizer que tomasse cuidado, porque não gostaria de vê-la ferida e magoada sendo que um seu sorriso me cai bastante melhor.

Deixei no entanto que ela aprendesse por si e não interferi em seus dedinhos que permaneciam tentando agarrar o icho, que a prática talvez lhe valesse mais. Ocorre que as experiências todas podem fazer sentido apenas se devidamente vividas, pois as coisas que aprendemos de outrem têm mais chances de se perder no ar. É por isso que as falas todas daquele filme especial que fizeram um sentido estúpido e sublime são aos poucos esquecidas, enquanto a vivência de um diálogo sequer, deixa sua marca para todo o sempre. O vocábulo dito não tem sentido para a alma, do que se depreende que não nos comunicamos intimamente. Se sinto nojo e te digo isto, saberás o que é nojo e saberás que estou enojado, mas não saberás o que é estar enojado naquele momento a menos que também o estejas.

É exatamente isto que nos toca nas pessoas: a ciência de que em algum momento de suas vidas elas compartilharam das mesmas experiências que nós. Se digo a alguém que Gabriel García Márquez é muito bom, e tenho de explicar por que é bom, isso difere de outra que responda fazendo uma ponderação mesmo que leviana sobre os Buendía. Porque uma história como a dos Buendía, mesmo que faça sentido de maneiras várias para pessoas variadas, é daquelas que nos deixam na alma pequenas marcas invisíveis; marcas que, quando aguçadas, dão conta de que o outro compartilha alguma parte especial deste mundo conosco, e para esse sentimento as palavras são vãs. E embora a Literatura seja sagrada a ponto de muitas vezes levar-nos a experiências que de outra maneira não viveríamos, no que reside um de seus valores, não corresponde sozinha a sorte de momentos que nos podem cunhar seus vincos. Essas coisas se dão num nível bastante sutil que no mais das vezes nos passa mesmo despercebido.

A graça de viver me ocorreu justamente como a possibilidade de encontrar pessoas que se tenham deparado de maneiras semelhantes à certas circunstâncias da realidade. Que entendam os planos, entendam as músicas, o jeito de falar olhando para o copo de vinho; que compartilhem da poesia, do jeito de ser distraído, das falhas mais doces; que compreendam o jeito arrogante e o deleite com a vida apesar da vida. E me ocorreu que talvez seja por isso que tanto gosto de escrever e escrever. Porque sendo as palavras vazias, ainda assim me parecem a maneira mais eficiente de se criar laços verdadeiros e uma das tentativas mais heróicas de se transgredir o círculo da individualidade.

<:o)

September 6, 2007

Hoje é um bom dia, como as probabilidades todas costumam apontar que não seja possível. Tem sol, tem gente bonita, tem Chesterton, tem um feriado logo ali e tem festa logo mais a noite. Esses detalhes, todavia, apresentam-se triviais, não dão conta do sentimento que supostamente representam. Ocorre que em dias assim a expressão das palavras torna-se comprometida. Não são os dias em que se convém escrever, e talvez isto valha para muitos dias daqui a frente. Falta o rigor da tristeza que, felizmente, tem a condição de ser perene. Hoje também há de ser o dia em que finalizo a mudança, outra mudança, não tendo sido a anterior empreendida com sucesso. Ficarei, como se sabe, sem acesso a Internet, o que, quem sabe, pode ser uma boa coisa. Mas diminua-se o volume do burburinho: continuarei a(l)tivo a escrever-lhes estas milongas ataviadas.

 

Oi!O

August 31, 2007

Analiso que há aqui numa pastinha especial que mandei fazer com couro de crocodilos da Ásia, que são os melhores, para guardar uns textos que certas vezes me ocorrem como as enxurradas d’água de uma catarata, textos que no mais das vezes acabam vindo parar nesta casa, há diversas passagens que apenas foram começadas e depois morreram num repente como se alvejadas por uma bala perdida. E ficam ali, o início dos textos que talvez jamais encontrem sua continuação, nas linhas perdidas da eternidade, porque sua fonte de inspiração passou aqui por apenas um momento de sua grande estrada sem volta pelo universo da noosfera. Talvez estivessem fadados a não nascerem em minhas mãos esses começos de histórias, talvez jamais tivessem estado vivos, porque o mundo não está ainda preparado pra alguns deles, sabe-se lá; os desígnios do Todo-poderoso são misteriosos aos olhos dos mortais.

Então, faço esse introdutório sobre textos natimortos, porque nesses dias passados o fenômeno esteve acontecendo em grande escala por cá. Estive assim numa pequena crise, que obviamente não vou chamar de bloqueio criativo porque não sou burro, né gente? Bloqueio criativo é per se uma expressão burra. E se por ventura não o fosse, e existisse mesmo algo chamado, pff, desculpem, bloqueio criativo, só padeceria dessa circunstância alguém muito burro. O que se deu comigo foi que estive uns dias away e tal. Foram várias passagens um tanto bruscas por que passei em pouco tempo que puseram-me num torpor translúcido – que imagem linda essa de um torpor translúcido.

Vocês hão de entender, gente. Sou um estudante burguês como dizem por aí. Faço parte dos 1, 64 avos dos jovens em universidades (no Brazil, 10% do total) que pensam. Às vezes até penso nisso, que, como pode a educação no país ser tão precária e exígua?, e às vezes até me compadeço. Fico pensando na reitoria da instituição em que estudo ocupada por estudantes, e às vezes até sinto empathy. Mas outro dia eu estava andando pelo campus e vi um garoto vestido com uma grande bandeira do Che deixando à mostra apenas os tênis adidas limpinhos. Não há coerência, como nunca deve ter havido. Houvesse, contudo, e mesmo assim me preocuparia por alguns poucos segundos e não mais, porque esses jovens não entendem que há essas coisas que são inevitáveis no decurso da vida, coisas em que não se pode interferir porque o projeto do Homem não tem volta.

Seria meu desejo que todos estudassem e fossem ricos e inteligentes e tivessem bom gosto. O mundo seria mais elegante e todos os homens ainda poderiam se vestir como Gardel. E as mulheres poderiam ser como as dos salões da Paris descrita por Balzac. Mas isso nunca será. Por isso eu não gosto de falar sobre política, e a mera menção da palavra me faz virar o rosto levemente enjoado para o lado. Homens decentes não discutem política. Política é rude, porquanto não atrai as damas.

Tem uma coisa, agora que retomei, por assim dizer, as rédeas do blog: tentarei escrever umonte (sic). Haverei de ficar sem Internet nos próximos meses, de maneira que os textos que escrever terei que levar embalado num papel de presente brilhante, acho que celofane, para algum computador da Universidade e lá publicá-los ou lá mesmo escrevê-los, ainda não decidi. Mas isso não será impedimento; a julgar pelo prazer que me dá escrever esses pequeninos pedaços de vida, em nada mudará a rotina da casa, ao que me ponho a perguntar-me por que sou tão romântico com as trivialidades.

 

Don’t lose me now

August 28, 2007

Quando fui à cozinha, o que parece ter sido há poucos minutos, o relógio do microondas marcava 16 horas. Vejo então no canto do ecrã, quase engolido por milhares de janelas que agora parecem tão desnecessárias, o relógio que já marca 17:03. Vou de tarefas que não quero fazer para músicas que fazem o desalento repousar ao mesmo assento que eu. E não entendo bem o motivo. Parece às vezes que nunca se dormiu o suficiente e que quando se cerra os olhos em busca de um sonho tudo parece real como jamais o foi.

 

how you doin

August 22, 2007

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in transitu

August 18, 2007

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